Atitude de Marta Suplicy é pequena diante dos problemas de Dilma

José Maurício dos Santos

A ministra da Cultura não poupou palavras para escancarar os problemas do governo de Dilma Rousseff e criticar a sua política econômica.

Por meio de uma carta de demissão ao apagar das luzes em meio à partida da presidente para a reunião do G20 na Austrália, Marta foi eficiente em atrair para si os holofotes da mídia. Pois poderia ser apenas mais um ministro a deixar o cargo a disposição às vésperas de uma reforma ministerial. Ela representa o lado lulista do PT que se afasta cada vez mais de Dilma.

“Todos nós, brasileiros, desejamos, neste momento, que a senhora seja iluminada ao escolher sua nova equipe de trabalho, a começar por uma equipe econômica independente, experiente e comprovada, que resgate a confiança e credibilidade ao seu governo e que, acima de tudo, esteja comprometida com uma nova agenda de estabilidade e crescimento para o nosso país. Isto é o que hoje o Brasil, ansiosamente, aguarda e espera”, afirmou a petista na carta de demissão.

Do outro lado do mundo, no conforto de uma suíte presidencial em Doha, no St Regis Hotel, em frente ao Golfo Pérsico, uma cortesia do governo do Catar ao custo de R$ 30 mil a diária, Dilma e o ainda ministro da Fazenda, Guido Mantega, reagiram mal com a notícia. No entanto, não é de hoje que a Marta tenta deixar a pasta. Mal encerrara o segundo turno, ela havia externado seu desejo para a presidente que pediu que ela ficasse até dia 5 de novembro para participar da entrega da Ordem do Mérito Cultural.

Marta e Dilma nunca tiveram afinidade. O que segurou a ministra foi a proximidade com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o qual cedeu o cargo à ela em troca de desistir da candidatura para a Prefeitura de São Paulo em favor de Fernando Haddad.

Marta foi uma das articuladoras do movimento “Volta Lula” no início do ano em detrimento da candidatura de Dilma. Ao lado do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, que também teceu críticas ao governo pela falta de diálogo do governo com os movimentos sociais.

Após dois anos à frente da pasta quando substituiu a mãe de Chico Buarque, Ana de Hollanda, Marta Suplicy retomará sua cadeira no Senado onde tem mandato até 2018. A secretária-executiva do ministério, Ana Cristina Wanzeler, assumirá interinamente até que se escolha um novo nome.

Entre os congressistas, o ex-ministro da Cultura Juca Ferreira é visto como o nome que substituirá a senadora Marta Suplicy (PT-SP). Sinal de que, até o momento, não emplacaram os movimentos para que Jandira Feghali (RJ), do PCdoB, ocupe o cargo em 2015. Manoel Rangel, agarrado à presidência da Ancine desde 2006, corre por fora.

Escolher o novo nome para a Cultura é o menor dos problemas de Dilma neste momento. Primeiro terá que azeitar a relação com um Congresso espinhoso enfervecido por uma base aliada descontente.

Um dos maiores desafetos de Dilma no PMDB, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), é o favorito para assumir a Presidência da Câmara dos Deputados diante de postulantes impopulares como Arlindo Chinaglia (PT-SP) ou Marco Maia (PT-SP). A perda pode ser ainda maior caso ele seja um candidato avulso, independente da indicação do PMDB. Pois, com o PT, maior partido da Casa, indicando um candidato a presidente, o PMDB, com a segunda maior bancada, terá o direito de indicar o vice-presidente. Ou seja, diante de uma manobra dos rebeldes da base aliada, o PT pode perder os dois maiores cargos da Câmara para o PMDB.

Em que pese o mal momento da economia, que não pode esperar para aprovação de medidas econômicas contra a inflação e que estimule o crescimento, seria um grande risco perder o controle de uma Casa que em breve chegarão formalmente as denúncias de escândalo da Petrobras envolvendo o governo petistas seus aliados desunidos detentores de interesses diversos em detrimento aos do Planalto.

Por outro lado, um Senado que começa a sentir de perto os efeitos da crise política. Procura-se um nome para controlar a Casa. Pressionado, Renan Calheiros (PMDB-AL) declarou que não se lançará candidato à Presidência. José Sarney (PMDB-AP) encerra seu mandato no final do ano e Vital do Rêgo (PMDB-PB) é nome forte para assumir a vaga no Tribunal de Contas da União (TCU) para ser o braço direito de José Múcio Monteiro na relatoria do caso da Petrobras.

vital do rego eduardo cunha

Romero Jucá (PMDB-RR), apesar de se mostrar disposto a reconquistar seu espaço no governo, é carta fora do baralho por apoiar a candidatura de Aécio Neves (PSDB-MG) à Presidência. Eduardo Braga (PMDB-AM), que aspira uma vaga no Ministério da Integração Nacional e Luiz Henrique (PMDB-SC) são os mais cotados para ficar à frente da Casa.

O Planalto precisa antecipar um acordo antes que as divergências da Câmara cheguem ao Senado e o PT, em resposta à candidatura de Eduardo Cunha, lance um senador para disputar com o PMDB. Dois podemos dizer que estariam em evidência: José Pimentel (PT-CE), relator da CPI da Petrobras, e Marta Suplicy, que já foi vice-presidente da Casa. No entanto, lá do outro lado do planeta, Dilma deve arrepiar só de pensar nessa possibilidade.



Jose Mauricio dos Santos
Autor: Jose Mauricio dos Santos
Jornalista, Cientista Político e especialista em Marketing Político.

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