Bolsonaro não tem capilaridade para bancar Previdência e pauta moral

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) parece ainda não ter se dado conta da importância do cargo para o qual foi eleito. Ele se comporta muitas vezes como se ainda fosse um deputado federal falando para o seu restrito público ultradireitista que o elegera naqueles tempos.

Há pouco mais de dois meses no Palácio do Planalto, Bolsonaro chama mais atenção por suas postagens no Twitter para apagar incêndios, quando não, com um galão de gasolina para iniciar outro, em detrimento dos árduos desafios que tem pela frente como a crise na Venezuela, a reforma da Previdência, o desemprego, entre outros.

Na última semana, Bolsonaro mais uma vez entrou no Fla x Flu, entre os conservadores sociais e a esquerda, e se mostrou mais preocupado com os costumes morais da sociedade do que com as questões econômicas para tirar o Brasil da crise. Ele compartilhou um polêmico vídeo em seu Twitter. O conteúdo mostra um homem urinando em outro, que dançava em cima de um ponto de táxi introduzindo o dedo no ânus, em público, durante um bloco de rua do Carnaval paulista. O presidente então instigou a população à crítica:
“Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro. Comentem e tirem suas conclusões (sic)”.

A atitude do presidente teve diversas reações, prós e contras, por parte da sociedade. No entanto, a Lua de Mel com seu eleitorado está cada vez mais restrita ao segmento mais conservador no âmbito social, o que pode afetar a sua popularidade nas ruas e, consequentemente, o seu apoio no Congresso, do qual depende para aprovar propostas imprescindíveis para alavancar a economia brasileira. O populismo empregado pelo governo pode ter um efeito contrário do desejado, dividindo ainda mais a opinião pública e agradando apenas uma parcela específica do seu eleitorado, como a aposentadoria dos militares, a posse de arma de fogo e questões morais.

A base aliada já se mostrou fragmentada ao derrubar o decreto de sigilo de informações editado no início do mandato, em detrimento da Lei de Acesso à Informação. Vale ressaltar que a dificuldade de mobilização de apoio para temas mais divergentes como a reforma da Previdência é muito maior, ainda mais se tratando de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que exige uma maioria qualificada de ambas as Casas do Congresso para ser aprovada.

O tempo urge. E o déficit nas contas públicas aumenta a cada dia. Na Câmara, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC) – a primeira a analisar o texto da nova Previdência, ainda nem foi instalada. O Planalto também não enviou o texto que trata da aposentadoria dos militares, uma das exigências dos congressistas para deliberar sobre as regras gerais da Previdência.

Outra questão são as interferências dos filhos do presidente com questões palacianas que causam turbulência na governabilidade de Bolsonaro, como o caso de Gustavo Bebianno, recém-exonerado da Secretaria-Geral da Presidência após ser fritado publicamente por Carlos Bolsonaro nas redes sociais com o apoio de Bolsonaro pai, que compartilhou as postagens do chamado “zero dois”.
A comunicação do governo melhorou com a entrada de um porta-voz no Planalto, mas de nada adianta alguém à frente desse cargo se as redes sociais ainda ofuscam o seu papel.

A articulação na Câmara também não é das melhores. A insistência no Major Vítor Hugo (PSL-GO) na liderança do governo na Casa, contrariando a base aliada, deixa essa relação ainda menos azeitada. O deputado, que teve apenas 31 mil votos, é visto com desconfiança por aliados, principalmente por aqueles que foram eleitos independente do apoio de Bolsonaro. A relação ficou ainda mais estremecida após a tentativa frustrada do líder do governo tentar convocar o colegiado de líderes via whatsapp, esquecendo que política se faz com olho no olho. E o que é firmado nos bastidores, muitas vezes, vale mais do que está publicado na mídia.

Como se diz no Brasil, “o ano começa após o Carnaval”. Em que pese essa máxima, após dois meses de mandato, Bolsonaro desconstruiu mais do que construiu a sua imagem perante o eleitorado.

Está na hora de separar os homens dos meninos, o joio do trigo, e focar no que interessa, de fato: a economia ou as questões morais. A verdade é que para haver mudanças significativas em ambos os segmentos, é necessário a governabilidade. E ela é medida por uma série de fatores que resultam no capital político. E em tempos de vacas magras e com o discurso da nova política em detrimento do pragmatismo, o Planalto hoje não tem capilaridade para lidar com questões morais e econômicas, simultaneamente, num cenário de polarização em que o Brasil se encontra.



Jose Mauricio dos Santos
Autor: Jose Mauricio dos Santos
Jornalista, Cientista Político e especialista em Marketing Político.

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