Backstage News Brasil 07/03/2019 – Governabilidade: Bolsonaro deve priorizar pauta moral ou econômica

O Backstage News é um produto diário da Tracker Consultoria que reúne os principais colunistas de política do País com informações dos bastidores do Poder.

 

FOLHA DE S. PAULO

Painel
Daniela Lima

Ressaca maior do que a festa
Líderes de partidos de centro e centro-direita do Congresso oscilaram entre a incredulidade e o deboche diante do vídeo obsceno e escatológico postado no perfil de Jair Bolsonaro, no Twitter, na terça (5). O presidente foi, primeiro, alvo de chacota. Depois, de cobrança. No fim desta quarta (6), o saldo era amplamente negativo. Integrantes da cúpula do Parlamento avaliam que Bolsonaro está, aos poucos, ele mesmo, minando a credibilidade que tem para liderar mudanças estruturais.

Tô fora
A decisão do presidente de publicar o filme na rede que centraliza os anúncios de sua gestão foi alvo de debate. Deputados questionavam se a mensagem tinha mesmo sido escrita por Bolsonaro. Aliados de Carlos, o 02, trataram de dizer que ele estava longe do pai, em Florianópolis.

Retrovisor
Dois ex-secretários de Comunicação da Presidência veem Bolsonaro replicando a estratégia eleitoral. “Na campanha, certos embates são permitidos, mas agora é diferente”, diz Márcio Freitas, que atuou na gestão Temer.

Posteridade
“Por mais que seja uma tática para manter inflado o grupo que o apoia, ele entrou numa seara complicada, a do debate abaixo da linha da cintura. E este é um cargo que se exerce sabendo que todos os dias você está fazendo história”, conclui Freitas.

Me basto
Para Thomas Traumann, que integrou o governo Dilma, Bolsonaro quer a base em “estado de campanha permanente”. “Mas o momento não é o melhor. Há a reforma da Previdência, e esse discurso só reforça antipatias. Não há comunicação de governo. Há a do presidente.”

Mea culpa
Aliados de Bolsonaro dizem que ele reconheceu que a postagem “não foi oportuna”. Esse grupo torce para que o episódio reforce o cuidado no manejo das redes.

Aqui não
A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, diz que o partido decidiu não apresentar proposta alternativa para a Previdência. “Somos contra. Não é o problema a se resolver. A única coisa que aceitamos discutir é o corte de privilégios. Nisso, teremos posição.”

Foi-se
Ala da sigla defende a adoção do que estava no plano de governo de Fernando Haddad, priorizando a reforma com foco nos servidores.

De olhos bem abertos
O projeto da Lava Jato de criar uma fundação com parte dos recursos recuperados pela operação é criticado entre ministros do Supremo e do TCU. As duas cortes devem ser acionadas por organismos, como a OAB, que questionam a iniciativa. Estima-se que, hoje, a entidade da força-tarefa poderia contar com R$ 1,5 bilhão.

Histórico
Integrantes do STF lembram que Teori Zavascki vetou operação semelhante. O ministro, que morreu em janeiro de 2017, disse não a pedido do Ministério Público Federal para ficar com parte do dinheiro recuperado após a delação de Paulo Roberto Costa.

Com o chapéu alheio
No TCU, há dúvidas sobre a legitimidade do pleito. O Congresso também não gostou. Vê na ação da Lava Jato a tentativa de viabilizar um “orçamento paralelo”, sem aval do Parlamento ou do governo.

Sem margem de manobra
Líderes da Câmara já defendem determinar a destinação dos valores recuperados pela Lava Jato em lei, por meio de uma emenda ao Orçamento.

Bom não é
“Constrangedor” foi a palavra usada por um conhecedor do STF ao se referir ao pedido de afastamento de Gilmar Mendes do caso de Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto. A peça do Ministério Público enumera contatos entre o ministro e Aloysio Nunes (PSDB-SP), de quem Vieira era aliado.

Bom não é 2
Já uma pessoa próxima a Mendes ataca a violação de suas comunicações.

Sinais
Um cardeal do MDB chama atenção para o que ele considerou o mais duro reparo já feito pelo vice Hamilton Mourão a um ato do presidente até aqui: a crítica ao desligamento de Ilona Szabó de conselho do Ministério da Justiça.

Tiroteio
No Carnaval, o povo gritou o que pensa de Bolsonaro. Ele, por vingança, desmoralizou o país. O despreparo é chocante
De Ciro Gomes (PDT-CE), sobre o vídeo escatológico apontado pelo presidente como um exemplo do que ocorreria nos blocos pelo Brasil

Mercado Aberto
Cris Frias

Inflação argentina força baixa em balanços de companhias brasileiras
Índice de preços ao consumidor amplo no país vizinho em 2018 teve a maior alta em 27 anos
Empresas brasileiras que têm operações na Argentina precisaram fazer ajustes em seus balanços por causa da inflação no país vizinho. O índice de preços ao consumidor amplo em 2018 teve alta de 47,6%, o maior número em 27 anos.
No mesmo período, o IPCA do Brasil subiu 3,75%.
Pelas normas internacionais de contabilidade, um país que acumula, em três anos, mais de 100% de aumento é considerado uma economia altamente inflacionária, e as companhias precisam seguir uma regra específica em seu balanço.
O resultado deve ser corrigido pelo índice local e depois convertido para a moeda do país da empresa.
Para a Ambev, isso teve o efeito de uma perda contável de R$ 557,8 milhões na receita anual.
O lucro líquido das Alpargatas foi diminuído em R$ 51,1 milhões por ajustes das operações na Argentina.
“A lógica desses ajustes é a de reconhecer o valor justo dos ativos: se houve perda, é preciso marcar isso e fazê-lo de acordo com regras específicas”, diz Alexandre Chaia, professor de finanças do Insper.
A Argentina passou de uma situação relativamente estável para um ambiente com classificação diferenciada, e as empresas são obrigadas a refletir a mudança em seus balanços, segundo Rogério Alexandre, professor da FIA.
“O maior problema para as brasileiras em 2019, no entanto, será a recessão argentina.”
O país terá eleições presidenciais em 2019, com primeiro turno previsto para dia 27 de outubro.

Setor elétrico já tem as próximas seis datas de leilão de geração
O calendário dos leilões para contratação de geradoras de energia para 2019, 2020 e 2021 foi publicado pelo governo. São seis datas previstas.
“Ter tempo para planejar é bom, pois dá mais chances para os investidores se prepararem”, diz Thais Prandini, da consultoria Thymos.
O setor elétrico pedia para que houvesse uma previsibilidade da agenda há anos —a indústria precisa de muito capital para construir usinas de geração, e é importante ter sinais de que haverá contratações.
“Sempre começávamos o ano com essa pergunta: haverá leilão? Agora saberemos que sim, e em quais dias”, diz Elbia Gannoum, presidente executiva da Abeeólica (associação das eólicas).
Estão previstos dois tipos de contratos, os que exigem entrega da energia em quatro anos (mais característicos de fontes como eólica, solar e biomassa) e os de seis anos (voltados a hidrelétricas e térmicas).
Há discussões no Congresso sobre a contratação: se deve levar em conta unicamente o preço da energia ou também o tipo de matriz.

Expectativas abastecidas
O faturamento das empresas atacadistas cresceu 4,74% em janeiro deste ano, segundo a Abad (associação setorial) e a FIA (Fundação Instituto de Administração).
Ao se considerar a inflação, o aumento real das vendas no primeiro mês de 2019 foi de 0,93%.
A alta é um sinal de continuidade do movimento registrado no fim de 2018, quando o setor começou a ter crescimento no acumulado do ano em outubro, novembro e dezembro, de acordo com a entidade.
Uma melhora mais relevante, porém, só ocorrerá caso reformas como a da Previdência e a tributária sejam aprovadas, afirma Emerson Destro, presidente da Abad.
“Enquanto não houver uma redução significativa no número de desempregados, não podemos nos enganar e achar que vai aumentar o consumo. Por enquanto, há mais uma expectativa de início de ano.”

Mônica Bérgamo

Líderes governistas na Câmara dizem que vídeo de Bolsonaro é loucura
A atitude do presidente e dos filhos nas redes sociais foi definida também como medíocre e primária
A postagem em que o presidente Jair Bolsonaro divulga a cena de um homem urinando em outro deixou a cúpula do Congresso perplexa. “Loucura”, reagiu um dos principais líderes da Câmara dos Deputados e que e apoia as reformas do governo.

NO CHÃO
A atitude de Bolsonaro e dos filhos nas redes sociais foi definida também como medíocre e primária. Há o temor de que a perda de respeito pela imagem do presidente contamine as já difíceis negociações em torno da reforma da Previdência.

EFEITO IMEDIATO
O Brasil vai explodir, seguiu o mesmo político ao receber o vídeo e perceber que a postagem de Bolsonaro era verdadeira.

CALDO
O ator José de Abreu estuda pedir um habeas corpus preventivo antes de chegar ao Brasil, na sexta, 8. Bolsonaro já disse no Twitter que vai processá-lo.

AGENDA
Abreu, que se autoproclamou presidente do Brasil para ironizar Juan Guaidó, que fez o mesmo na Venezuela, estreia em maio em uma nova novela da TV Globo.

TUDO MENTIRA
É falsa uma postagem no Twitter em que Xuxa supostamente criticaria Jair Bolsonaro por divulgar um vídeo escatológico —e em que o presidente responderia a ela de forma grosseira.

DAS ANTIGAS
De acordo com amigos da apresentadora, Bolsonaro jamais seria indelicado. Embora não tenha nenhuma proximidade com Xuxa, ele conheceu o pai dela, Luiz Floriano Meneghel, que foi sargento do Exército.

ME CHAMAM
O carnavalesco Leandro Vieira, da Mangueira, diz que recebeu “convite de três escolas” para tocar o Carnaval em 2020. “Mas enquanto eu não souber quem vai ser o próximo presidente (a eleição para o comando da agremiação será em abril), não posso decidir nada”, diz ele.

QUERO FICAR
“Não tenho interesse em sair, mas o presidente que me contratou [Chiquinho da Mangueira, detido na Operação Fuma da Onça em 2018] tá em cana. Eu faço questão de trabalhar com liberdade, e na Mangueira faço o que quero, graças a Deus”.

DE LONGE
Lula recebeu mensagens de solidariedade na prisão depois da morte do neto Arthur, de 7 anos. Uma das que mais o emocionou foi a do senador tucano Tasso Jereissati (PSDB-CE).

DE PERTO
Adversário duro do PT, Jereissati manifestou solidariedade pelo momento trágico que o ex-presidente atravessa.

DE NOVO
O senador José Serra (PSDB-SP) também enviou uma mensagem. Ele já tinha se manifestado pelo Twitter.

POR ESCRITO
Além dos dois, também Chico Buarque e a namorada dele, Carol Proner, escreveram uma carta.

OMBRO
Sem poder receber visitas de amigos ou familiares, restritas às quintas-feiras, Lula esteve com Luiz Eduardo Greenhalg, seu velho amigo e advogado —os defensores têm acesso aos presos em outros dias da semana.

OMBRO 2
Os dois almoçaram macarrão com carne desfiada e lavaram a louça na pia do banheiro depois da refeição.

EU SEI
E o governador da Bahia, Rui Costa (PT-BA) depõe nesta quinta (7) como testemunha no processo da Operação Zelotes. Nele, Lula responde por lavagem de dinheiro e tráfico de influência.

GRÁTIS
O público feminino terá entrada gratuita no Masp nesta sexta (8), data na qual é celebrado o Dia Internacional da Mulher.

 

O ESTADO DE S. PAULO

Coluna do Estadão
Alberto Bombig

Fustigado, Bolsonaro retorna até sua pedra fundamental
Um dos efeitos do comportamento de Jair Bolsonaro nas redes sociais no carnaval foi o de arrefecer o ímpeto de governistas moderados que se imaginam capazes de manter algum controle sobre o presidente, conforme apurou a Coluna. Quem o conhece de longa data, porém, não se surpreendeu com o polêmico post no Twitter: ele ainda age por impulso quando fustigado. Nesses momentos, para além de liberalismo econômico e Lava Jato, recorre à pedra fundamental do “bolsonarismo”: a agenda ultraconservadora-moralista dos costumes.

A saber
Há quem sonhe (ou sonhava) exercer controle sobre Bolsonaro nos núcleos militar, lavajatista e econômico do governo.

Energia…
Na equipe econômica, a sensação provocada pelo tuíte do presidente é a de que o governo poderia ter passado sem essa.

…dissipada
Não deverá haver impacto em temas importantes, dizem aliados, que só lamentam Bolsonaro não estar usando sua desenvoltura nas redes para promover, por exemplo, a reforma da Previdência.

Para baixar a poeira
“Tuíte não interfere na política”, afirma Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ).

Álibi
Membros do Centrão acham que nenhuma declaração de Bolsonaro será grave o suficiente para ensejar um pedido de impeachment antes do desafio de mudar a Previdência.

Secou
Deputados petistas querem cancelar o desconto do dízimo sobre o auxílio-mudança. São cerca de R$ 4,5 mil por parlamentar. Eles alegam que o benefício não é renda e, portanto, não cabe cobrança.

Divididos
Parte da bancada feminina do PSL resiste a Joice Hasselmann no comando da ala Mulher do partido. Chegou até a circular um abaixo-assinado para destituí-la em favor da senadora Soraya Thronicke.

Promessa
Soraya tem um vídeo de Bolsonaro prometendo-lhe a presidência. Joice foi alçada ao posto por Luciano Bivar, presidente do PSL, e Dayane Pimentel, a antecessora dela.

Bola rolando
Segundo Soraya, a decisão ainda pode ser revertida pelo PSL.

Geração…
O Ministério da Justiça estuda alugar os 459 imóveis apreendidos de bens de traficantes enquanto não forem vendidos. A pedido de Sérgio Moro, o secretário nacional de Políticas sobre Drogas, Luiz Beggiora, vai à França e à Itália estudar como esses processos funcionam lá.

…de renda
Por questões burocráticas, o Brasil só leiloou em 2018 mil bens apreendidos, totalizando R$ 6 milhões aos cofres da União. No momento, porém, existem 30 mil com trânsito em julgado prontos para serem vendidos.

Click
O governador Flávio Dino (PCdoB) pulou carnaval no Maranhão no meio da multidão. De “fantasia”, um boné de estrela vermelha, à la comunista chinês.

Voz…
Vem aí um nova pesquisa qualitativa para consultar a sociedade sobre a percepção quanto à prestação de contas da Justiça.

…das ruas
A iniciativa é da Associação dos Magistrados Brasileiros e coordenada por Antônio Lavareda, cientista político, e Marco Bellizze, ministro do STJ.

De volta a SP
Ciro Gomes debaterá lobbies e frentes parlamentares com o advogado Walfrido Warde em evento do Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (Iree), no dia 11, em São Paulo.

Pronto, falei!
Marcos Pereira, presidente do PRB e deputado federal (SP): “Não caberia ao presidente, pela liturgia do cargo. Mas a intenção foi chamar atenção para a degeneração de parte da sociedade”, sobre vídeo publicado por Bolsonaro.

Direto da Fonte
Sônia Racy

PSL coloca foco em SP de olho em 2020
O foco do PSL, para 2020, é “fazer São Paulo”, avisa o senador Major Olímpio. O partido quer lançar no Estado o maior número possível de candidatos a prefeito – no momento, não tem nenhum.
Nas contas do senador do PSL, é preciso ter muitos candidatos para impedir que políticos locais se apropriem dos diretórios municipais.
Para as convenções, que devem acontecer em junho, há uma pedra no caminho: na grande maioria das cidades, os diretórios do PSL são provisórios e é preciso começar tudo quase do zero.

Alckmin volta à cena para falar sobre Previdência
Geraldo Alckmin pediu o microfone. O presidente do PSDB aceitou convite de Latif Abrão Jr., da ADVB, e falará sobre reforma da Previdência a empresários de vendas e marketing. O Fórum de Temas Nacionais acontece dia 18, no Buffet Colonial.
O tucano deverá abordar os desdobramentos da mudança e as implicações contidas no texto que Bolsonaro levou à Camara, em fevereiro.

Vera Magalhães

Bolsonaro e os pobres
O discurso altamente ideologizado do presidente tem feito com que categorias como professores, ambientalistas, sindicalistas, ativistas e artistas sejam automaticamente associados ao PT e estigmatizados por aliados e por ele próprio
A parcela da esquerda que não está presa à armadilha autoimposta de passar os dias bradando “Lula Livre” nas redes sociais e defendendo a ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela vai, aos poucos, detectando um flanco para enfrentar o governo de Jair Bolsonaro: a falta de projetos voltados aos mais pobres. O caminho, diga-se, foi mostrado pelo próprio presidente e seu entorno.
O discurso altamente ideologizado de Bolsonaro tem feito com que categorias como professores, ambientalistas, sindicalistas, ativistas de organizações não governamentais e artistas sejam automaticamente associados ao PT e estigmatizados – quando não xingados de larápios de dinheiro público, canalhas e outros adjetivos – por aliados do presidente, ministros e quando não pelo próprio. O exemplo mais recente foi o entrevero entre Bolsonaro e artistas no carnaval. Na visita de Juan Guaidó a Brasília, Bolsonaro brincou que a esquerda gosta tanto de pobres que acaba por “multiplicá-los”. Mas o que o governo propõe para reduzir a pobreza?
Por ora não se sabe. A agenda liberal do governo tem levado a mudanças como as referentes ao Benefício de Prestação Continuada e à aposentadoria rural na reforma da Previdência, à redução de repasses para as faixas mais populares do Minha Casa Minha Vida e à suspensão da reforma agrária.
Já há setores do governo preocupados com essa balança social desequilibrada. O próprio presidente deu mostras de que pode não bancar a proposta de “focalização” do BPC defendida pela equipe econômica, justamente pelo peso do programa junto aos mais pobres, principalmente nos Estados do Nordeste.
Na campanha eleitoral, Bolsonaro tinha feito uma inflexão em seu discurso histórico contra o Bolsa Família (sempre associado por ele à compra de votos pelo PT) ao dizer que iria manter e ampliar o programa, instituindo inclusive um 13.º para os beneficiários. Parecia entender que, para ampliar sua base social, precisaria falar aos mais necessitados da pirâmide social. Os primeiros meses não trouxeram um conjunto de iniciativas voltadas a esse público, e a oposição, que mostrou na eleição que não tem um projeto que fale ao conjunto da sociedade, percebe a lacuna e começa a se reorganizar para atuar nela.

Articulação da reforma em marcha lenta pós-carnaval
A equipe da Secretaria Especial da Previdência só retoma na quinta-feira a mobilização em prol da reforma. Deputados só retornam em massa a Brasília a partir da semana que vem, e os dias pós-folia serão usados para coordenar o discurso. A pausa carnavalesca foi comemorada por articuladores do governo, que avaliam que será benéfica para mitigar o efeito das declarações de Bolsonaro na semana passada, quando admitiu graciosamente negociar aspectos do texto. “Vamos voltar com a defesa do texto que foi enviado”, me disse ontem um dos negociadores da reforma. As atenções estarão voltadas para a composição da Comissão de Constituição e Justiça e da Comissão Especial que analisará o mérito da proposta. O nome do jovem Fernando Franceschini (PSL-PR) para presidir a CCJ foi recebido com ceticismo na área técnica do governo, que prefere a deputada Bia Kicis (PSL-DF), considerada mais firme e mais madura para uma comandar a principal comissão da Câmara.

Ecos do carnaval deveriam ser alerta para o Planalto
Quando começaram os primeiros panelaços contra Dilma Rousseff, em 2015, a primeira reação do PT foi ironizar os “ricos” que usavam suas Le Creuset nas varandas gourmet das grandes cidades para fustigar a presidente. Como se viu, foi um tremendo erro de avaliação minimizar a insatisfação. Os gritos contra o presidente deveriam servir de alerta ao Planalto para o pulso das ruas, que bate em compasso diferente daquele ambiente controlado e artificial das redes sociais a favor.

Doria defende para Witzel privatização de sambódromos
João Doria aproveitou a visita ao Carnaval do Rio para articular com o colega Wilson Witzel o apoio dos dois Estados à reforma da Previdência. De brinde, o governador paulista teceu loas diante do colega fluminense ao projeto de privatização do sambódromo paulista, o que levou Witzel a dizer que a concessão da Sapucaí à iniciativa privada pode também ser um bom caminho para o endividado governo do Rio.

William Waack

Lição americana
Toda política externa sofre quando profissionais são desprezados e vence a gritaria na internet
Para interessados em diplomacia e política externa, vale a pena ler The Back Channel, as memórias profissionais de William Burns, um dos mais importantes diplomatas americanos dos últimos 30 anos. Ele serviu a cinco presidentes e dez secretários de Estado e acompanhou todos os principais momentos que vão da vitória na Guerra Fria à concepção de mundo de Trump. É uma rica descrição da transição da diplomacia da era pré para a era pós-Twitter.
É uma obra com importantes lições para o debate atual sobre política externa brasileira, desatado pela crise da Venezuela. Burns serviu a republicanos e democratas e sua principal crítica a figuras como George W. Bush ou Barack Obama é basicamente a mesma: a de que o profissionalismo de diplomatas (e suas escolas) cedeu lugar à esfera do Twitter e ficou em segundo plano a ideia de que diplomacia serve sobretudo para comunicar, convergir e manobrar para obter vantagens futuras, especialmente por meio de alianças. Lição para o Brasil.
Burns contribui para provar que um “staff” profissional bem conduzido é capaz de identificar tendências com grande antecedência, como demonstra memorando que ele enviou a Bill Clinton, em 1992, afirmando que a vitória americana na Guerra Fria traria maior fragmentação e o mundo recuaria para nacionalismos e extremismo religioso, ou uma combinação dos dois – é uma boa descrição de parte das crises internacionais atuais. Como governantes se preparam ou reagem a contingências é outra história. Nesse sentido, Burns é duro com Obama, mas a paulada maior é na política da “America First” de Trump. “Uma sopa nojenta de unilateralismo beligerante, mercantilismo e nacionalismo bruto”, caracterizada por “posturas de força e afirmações desvinculadas de fatos”, escreve Burns. Lição para o Brasil.
O maior problema de Trump, porém, é o que Burns chama de “sabotagem ativa” contra o Departamento de Estado, ou seja, o “staff” profissional. Mais uma lição para o Brasil. Quando Lula assumiu em 2003 o Itamaraty foi subordinado à influência de um guru com ideias totalmente desvinculadas da realidade (e presas ainda ao esquerdismo infantil dos anos cinquenta) e um chanceler dedicado a vendetas contra qualquer um identificado com o “ancien regime” na casa, ou seja, que não fosse da turma dele. É muito similar ao que acontece agora, e as consequências começam a se desenhar da mesma maneira: perda de foco, ênfase no espetáculo em torno de um líder “infalível” e a confusão entre postulados ideológicos de franja do espectro político com interesse nacional de longo prazo.
A “lacração” típica do comportamento de militantes, empenhados em ganhar no grito “debates” em redes sociais, leva a afirmações do tipo “o Brasil guiou os Estados Unidos” na crise da Venezuela. A frase fica valendo como argumento para o qual não há fatos – a não ser que se despreze o fato básico de que só os americanos têm recursos para bater (com poderio militar sem rival no planeta) e para pagar (com o músculo financeiro para impor sanções ou conseguir alívio para amigos). E são eles os que batem e/ou pagam, que teriam sido conduzidos numa crise de amplas proporções internacionais por quem não consegue nem um nem outro.
A atual crise da Venezuela não foi uma “escolha” brasileira. Mas demonstra como a falta de profissionalismo na condução da política externa, ideias erradas e cumplicidade oportunista de classes empresariais (não só no episódio da molecagem diplomática que colocou a Venezuela no Mercosul) criam problemas de difícil solução. A época do Twitter, lamenta o veterano Burns, sepultou o frio racionalismo da diplomacia de contatos, informação e influência. Pior ainda quando a política externa fica a cargo de amadores arrogantes.

 

O GLOBO

Bernardo Mello

Bolsonaro difamou a maior festa popular do país
Obscenidades presidenciais
É difícil se chocar com as declarações de Jair Bolsonaro. O presidente já exaltou torturadores, elogiou um ditador pedófilo, disse que uma deputada não merecia ser estuprada porque era “muito feia”. Mesmo com este histórico, ele conseguiu causar escândalo ao divulgar um vídeo escatológico a pretexto de “expor a verdade” sobre o carnaval.
Bolsonaro não precisou sair do palácio para saber que foi malhado por blocos e escolas de samba. Em todo o país, foliões ironizaram trapalhadas do governo e entoaram coros contra o presidente. O laranjal que ronda o Planalto caiu na boca do povo e nas redes sociais. Nas ruas do Rio, para cada pierrô parecia haver alguém fantasiado de Queiroz.
A tuitada pornográfica foi uma clara tentativa de revide. Já seria uma atitude imprópria, mas ainda assim o presidente passou do ponto. Sua postagem ofendeu milhões de brasileiros que participaram da folia sem praticar as obscenidades do vídeo. Além disso, difamou a maior festa popular do país.
Segundo o Ministério do Turismo, o carnaval deste ano injetaria R$ 6,78 bilhões na economia. A festa atrai turistas, lota hotéis e gera empregos. No Rio, apesar da má vontade da prefeitura, era prevista a abertura de 72 mil vagas temporárias.
A pregação moralista já deu muitos dividendos a Bolsonaro, mas até aliados consideraram que ele se excedeu. O Planalto tentou consertar a lambança ontem à noite, negando a “intenção de criticar o carnaval de forma genérica”. Apesar do recuo, o estrago estava feito. Os tuítes repercutiram mal nas redes sociais e na imprensa, aqui e no exterior.
Se não fosse tão autocentrado, o presidente saberia que o carnaval sempre criticou quem está no poder. É uma tradição da festa, contra a qual não adianta se insurgir. Em 1912, o marechal Hermes da Fonseca mandou adiar os cortejos por causa da morte do Barão do Rio Branco. O povo brincou duas vezes e o ridicularizou a ordem com uma marchinha: “Com a morte do barão / Tivemos dois carnavá / Ai que bom, ai que gostoso / Se morresse o marechá”.

Lauro Jardim

Bolsonaro e a Record
No meio da tarde, às 16h30, Jair Bolsonaro recebe em audiência no Palácio do Planalto o presidente da Record, Marcos Vinicius.

Bartolomeo assume a Vale e tenta virar o jogo
Eduardo Bartolomeo desembarca hoje no Galeão, vindo do Canadá, e vai direto para a Vale, assumir a presidência interina da mineradora.
Não está escrito, mas sabe que, se domar minimamente a crise em que a Vale está metida, será efetivado no cargo.
Já Fabio Schvartsman, cujo pedido de afastamento ao conselho de administração foi anunciado no sábado de carnaval, não volta ao cargo nem se Bartolomeo não vingar.

Merval Pereira

Momento deprimente
É deprimente ter que tratar de um assunto desses no momento em que o país tem em jogo tantos temas importantes para o seu futuro. Ser fiscal dos costumes não é, definitivamente, o papel de um presidente da República. Para isso, há leis e órgãos de fiscalização e repressão.
Não se trata de defender, muito menos de eximir de culpa os que praticaram os atos pornográficos exibidos pelo presidente em seu Twitter. Atentado ao pudor merece as penas da lei. Mas generalizar um comportamento pervertido como sendo o retrato de blocos de carnaval é uma atitude desprezível, sobretudo para o presidente de um país que tem no Carnaval a sua maior festa, que injeta dinheiro em uma economia paralisada, promove empregos, mesmo que temporários, e é o símbolo do povo brasileiro, que cativa os estrangeiros.
Bolsonaro, postando um vídeo daquele nível numa rede pública, está cometendo um atentado ao decoro, divulgando material pornográfico com a chancela da presidência da República. O presidente Jair Bolsonaro tem é que estar empenhado em aprovar as reformas importantes, sobretudo a da Previdência, sobre a qual são poucas suas manifestações na internet.
Além do mais, ao sugerir que esta é a imagem do Carnaval, está sendo injusto com a imensa maioria dos foliões, e prejudicando um dos ativos intangíveis mais valiosos que a cultura brasileira tem. Por que não publicar os milhares de vídeos mostrando uma comemoração saudável, com famílias inteiras nos blocos, inclusive crianças?
Não tem sentido, mesmo que tenha razão nas críticas, publicar um vídeo pornográfico em seu twitter pessoal. Se quer dar prioridades aos temas de costumes, poderia ter feito comentários, chamando a atenção para fatos como os que exibiu explicitamente. Fazer campanha contra o turismo sexual é, sim, papel do governo e saudável para o país.
É inacreditável, no entanto, que Bolsonaro não tenha noção do que seja uma impropriedade da função para a qual foi eleito. O perigo é que confunde suas convicções pessoais com as da Nação. Se quer que seu moralismo exacerbado seja o novo normal do país, tem que dar o exemplo. E postar pornografia não é certamente a melhor maneira de preservar sua autoridade, a nível nacional e internacional.
Bolsonaro já admitiu, entre gargalhadas, num programa CQC na Rede Bandeirantes, que, quando adolescente, fez sexo com diversos animais como “jumentinho” e “galinha”. A isso chama-se zoofilia, atração sexual de humanos por animais. Assim como a cena exibida por Bolsonaro é chamada de urofilia. Ambas são patologias classificadas como parafilia, “preferências sexuais anormais e doentias”.
Sua atitude, na melhor das hipóteses, está sendo atribuída a uma revanche contra os blocos de rua que o criticaram em diversas partes do país. Tomando a parte mínima pelo todo, Bolsonaro estaria desqualificando as críticas.
Mas há também a possibilidade de que tenha querido agradar uma parte importante de seu eleitorado, que vê no Carnaval uma festa profana que não deve ser estimulada. Seria a mesma atitude do prefeito Marcelo Crivella que nunca deu importância para o Carnaval, viajando para fora do país no momento que deveria ser mais importante, se recusando a entregar a chave da cidade para o Rei Momo, sem assistir ao desfile das escolas de samba.
Infelizmente houve vários presidentes brasileiros que protagonizaram cenas que os desmoralizaram, ferindo o decoro do cargo. Como Collor quando disse, num comício público, que tinha “aquilo roxo”. Ou Itamar, que recebeu no camarote presidencial no Carnaval uma mulher sem calcinha. Esses foram atos públicos, fora os privados, que chegaram ao público através de vídeos e gravações.
Como Lula, numa campanha, fazendo piada com os homossexuais. Ou chamando as mulheres de “grelo duro” a defendê-lo. Em todos esses casos, o machismo brasileiro se impôs, ajudando a esvaziar a repercussão da fala inapropriada.
Bolsonaro deveria entender que chegou ao Palácio do Planalto também com os votos daqueles que o consideravam o mal menor, que não queriam a volta do PT ao poder. Numa democracia, o eleito é presidente de todos os brasileiros, mesmo dos que não votaram nele.
Dos seguidores de todas as religiões, de todas as pessoas que brincam Carnaval, e das que não brincam também. Por isso não tem o direito de querer impor suas convicções pessoais ou politicas. O exemplo do veto à indicação de Ilona Szabó para a suplência de um Conselho do ministério da Justiça mostra que ele não entende que no governo, e especialmente num conselho consultivo, é preciso ter quem pense diferente para ajustar as decisões do governo aos anseios da sociedade, que não se expressa pelas redes sociais. Ou pelo menos não só através delas.
O conteúdo explicito da pornografia acontecida em público, e sua divulgação, sob o pretexto de defender a moralidade, foram momentos deprimentes do triste cotidiano de um país que não consegue construir seu futuro.

Miriam Leitão

Este carnaval foi das críticas
Este foi um carnaval de críticas ao governo, nos blocos, nas avenidas, nas letras, nos enredos e nas fantasias, nas alegorias e nos bordões. Normal. O carnaval é irreverente, ácido, inclemente. As autoridades são sempre alvo. Era assim no período autoritário, quando em plena Brasília nasceu o bloco “pacotão”, parodiando o pacote de abril do Geisel. E tem sido assim no período democrático. Houve enredos de protesto e sátiras, nas últimas décadas, que se tornaram clássicos. O certo é o governo seguir com seu trabalho nos dias úteis, após as cinzas, e ponto final.
O presidente Jair Bolsonaro iniciou uma nova polêmica desnecessária quando postou seu vídeo criticando o carnaval, e depois fazendo postagem contra artistas, misturando isso com a lei de incentivos à cultura. A cena é escatológica, mais do que obscena. Um perfil com 3,4 milhões de seguidores pode transformar um fato pouco visto numa viralização. O presidente da República dar exposição a uma situação como aquela é um completo nonsense. E a nota divulgada ontem à noite pela Presidência não anula o erro da postagem.
O carnaval é festa tradicional, e no Brasil movimenta a economia, atrai turistas e produz formas variadas de manifestações culturais. Por isso ele é tão diverso. Obviamente não se resume a uma cena. O presidente particularmente pode não gostar do carnaval. Há o grupo, no qual me incluo, que prefere o momento para se recolher e descansar com a família. Mas os que não gostam da folia certamente não ficam procurando motivos para impedir que os foliões façam seu carnaval. É uma escolha, cada um faz a sua. O presidente quer o que ao postar o tal vídeo? Dizer que aquilo foi o carnaval?
Ele pode, como governante, não gostar de uma lei e propor sua revogação ou sua alteração. Todo incentivo, ou política que envolva dinheiro público, deve estar sob constante fiscalização para aperfeiçoamento, atualização, comprovação de que cumpre seu objetivo. Há inúmeros tipos de incentivo no Brasil, o ministro Paulo Guedes prometeu durante a campanha que iria reduzir essas renúncias fiscais. Até agora nada evoluiu. Exceto as declarações contra a Lei Rouanet, o que indica que não é a renúncia fiscal que preocupa o governo, mas as críticas que eventualmente tem recebido de artistas.
O presidente da República, em vez de abrir polêmicas, deveria simplesmente sugerir a mudança que queira fazer nessa ou em qualquer lei. Um governante sério só propõe o fim de uma legislação como essa, que atravessou já vários governos, após o cálculo do custo-benefício, principalmente porque a economia criativa tem também valor intangível e retornos indiretos. Benefícios fiscais para incentivar a arte, em cada uma de suas manifestações, existem em qualquer país do mundo.
Aqui no Rio, no mais tradicional carnaval do Brasil, vive-se o dilema de um prefeito que não gosta de carnaval e não entendeu que administrar a cidade é diferente de impor as suas escolhas pessoais aos munícipes. Marcelo Crivella também tem o direito de propor o fim de qualquer subvenção pública às escolas de samba, mas que isso não seja por motivos da religião que professa, e sim por algum cálculo que tenha feito sobre o retorno ou não desse dinheiro investido. Governar é fazer escolhas, mas que elas não sejam determinadas pelos interesses ou rejeições pessoais do governante.
Mesmo quem se recolheu e viu o carnaval de longe, não pisou em avenida, nem se integrou a bloco percebeu que o tom desse carnaval foi de críticas ao governo Bolsonaro em todos os estilos, sons e cores. E houve também queixas contra dores bem mais antigas, algumas ancestrais. O majestoso desfile da Mangueira com o seu samba-enredo que certamente ficará na história, a mesma que ela se propõe a corrigir incluindo as visões dos que têm sido excluídos da história oficial, é apenas um exemplo. O da Mancha Verde também foi um recontar da história, colocando a centralidade nos negros e na saga da luta contra escravidão. As guerreiras da comissão de frente da Portela falaram com seus rostos. Outros enredos de escolas também trouxeram o tom da crítica como não podia deixar de ser. Primeiro, porque carnaval é carnaval. É a hora de protestar cantando e dançando contra o que se quiser. Segundo, porque o país está com as sequelas de uma campanha eleitoral extremamente polarizada. E terceiro porque, desde que assumiu, o governo tem produzido notícias que se prestam a todo o tipo de paródia.

 

BLOG DO CAMAROTTI
Gerson Camarotti

Previdência pode ficar para 2º semestre se CCJ não for instalada na semana que vem, diz deputado
O deputado Felipe Francischini (PSL-PR), futuro presidente da Comissão de Constituição e Justiça, afirmou nesta quarta-feira (6) que, se a CCJ não for instalada na próxima semana, a reforma da Previdência pode ser votada no plenário da Câmara somente no segundo semestre deste ano, informa o repórter Nilson Klava, da GloboNews.
A proposta foi entregue pelo presidente Jair Bolsonaro em 22 de fevereiro, e será analisada primeiro pela CCJ. Depois, a discussão caberá a uma comissão especial. Por fim, o texto será enviado ao plenário da Câmara, onde precisará dos votos de pelo menos 308 dos 513 deputados, em dois turnos de votação. Se aprovada, seguirá para o Senado.
“O presidente Rodrigo Maia me disse que instalação [da CCJ] deve ser entre terça [12] e quarta [13]. Ainda estamos esperando as indicações dos líderes para a comissão. Se não instalar na semana que vem, acho difícil que o texto final da reforma seja votado no plenário ainda no primeiro semestre. A CCJ vai ser o grande termômetro”, afirmou o futuro presidente da comissão.
Pelo acordo do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), com os partidos, o PSL comandará a CCJ. O presidente do partido, Luciano Bivar, anunciou a indicação de Felipe Francischini.
O deputado afirmou nesta quarta que fará a escolha do relator da reforma um dia após a CCJ ser instalada.
Alguns líderes de partidos aliados ao governo têm protelado a indicação de integrantes com o objetivo de enviar ao Palácio do Planalto uma sinalização de descontentamento diante da falta de articulação e da divisão de espaços.

Proposta para militares
Outra questão colocada por deputados é o envio do projeto com mudanças na aposentadoria dos militares.
O líder do PRB, Jhonatan de Jesus (RR), por exemplo, disse que o partido já definiu os integrantes para a CCJ, mas só vai apresentar os nomes após o governo enviar o texto.
“Nós não vamos iniciar o processo da Comissão Especial sem o envio das mudanças na aposentadoria dos militares. O PRB não indicará seus integrantes”, afirmou o líder.

 

BLOG DO VALDO CRUZ

Governo precisa parar de gerar crise e focar na agenda econômica, avaliam assessores
A avaliação interna da equipe presidencial é que o governo perde energia com temas que mais geram desgaste do que frutos para seu futuro. É uma administração que produz crise demais num curto espaço de tempo e deveria focar no que realmente interessa, medidas na área econômica, caso não queira frustrar seu eleitorado e a população.
Nas palavras de um assessor, de nada vai adiantar ficar fazendo discurso, postagens nas redes sociais e pregação sobre temas conservadores, se a crise econômica não for enfrentada e resolvida. Essa tem de ser a prioridade do presidente Jair Bolsonaro, avaliam auxiliares palacianos.
E não há mais tempo a perder. Afinal, as previsões sobre o crescimento deste ano começam a piorar: já caíram oficialmente de 2,48% para 2,3%. Alguns economistas já falam em menos de 2%
Na visão da equipe presidencial, Bolsonaro precisa entender que o que fará a diferença sobre seu governo é se ele conseguirá fazer o país voltar a crescer forte.
Se não conseguir, a avaliação é de que ele começará a perder prestígio e apoio. E o momento não é de perder força e capital político com assuntos que não irão mudar a realidade econômica do país. A reforma da Previdência, por exemplo, não estaria ganhando espaço na agenda presidencial que merece e necessita.
A demora do governo em encaminhar a proposta de mudança na aposentadoria dos militares pode até inviabilizar, de vez, as previsões que já eram consideradas otimistas de aprovar a reforma da Previdência ainda neste primeiro semestre no Congresso.
Agora, o que se ouve nos corredores do Congresso, é que há até risco de a proposta não ser votada em dois turnos na Câmara antes do recesso parlamentar.
Afinal, além da demora no envio do projeto sobre os militares, o governo ainda patina na formação de sua base aliada. E o clima deve ser de tensão nas próximas semanas, com algumas votações previstas sem uma base ainda montada, como as medidas provisórias que reestruturam a Esplanada dos Ministérios e a que busca combater fraudes na concessão de benefícios previdenciários.

Depois da Previdência, governo vai propor fim da unicidade sindical
Depois da reforma da Previdência Social, o governo Jair Bolsonaro vai propor mudanças em outro ponto polêmico, dentro da linha de sua agenda liberal. O secretário de Previdência Social e Trabalho, Rogério Marinho, disse ao blog que a ideia é propor o fim da unicidade sindical, sistema em vigor hoje e no qual um só sindicato representa uma categoria numa região do país.
“Vamos propor o fim da unicidade sindical para criar mais concorrência entre os sindicatos, beneficiando os trabalhadores, que poderão escolher aquela entidade que defende de forma mais eficaz seus direitos”, afirmou ele.
O secretário diz que, hoje, a realidade brasileira é que existe um cartório de sindicatos no país, com trabalhadores dependendo apenas de uma entidade, que nem sempre os representa adequadamente.
“Vamos acabar com esse cartório, o que vai inclusive beneficiar os sindicatos profissionais e mais bem organizados no país, que realmente defendem os direitos dos trabalhadores”, acrescentou.
Marinho afirmou, porém, que a proposta não será enviada agora ao Congresso Nacional. “Depois de aprovar a Previdência, porque agora vai gerar mais turbulência e nossa prioridade é a mudança nas regras de aposentadoria do país”, complementou.
A medida, segundo Marinho, é sequência da agenda liberal do governo Bolsonaro, que editou nos últimos dias medida provisória deixando claro que a decisão de pagar a contribuição sindical é “individual”, de cada trabalhador, que precisa da sua autorização e com pagamento via boleto bancário.
Segundo o secretário, juízes do trabalho estavam referendando decisões de sindicatos de aprovar a cobrança da contribuição em assembleias coletivas sob o argumento de que a reforma trabalhista não fala em decisão individual e contribuição individual dos trabalhadores, brecha que estava sendo usada por sindicatos para aprovar a cobrança de toda categoria por meio de desconto em folha de pagamento.
Na avaliação do governo, alguns juízes e sindicatos estavam burlando a reforma trabalhista, indo contra o que os parlamentares aprovaram durante o governo do ex-presidente Temer. Por isso, a decisão de editar a MP deixando claro que a contribuição depende de autorização individual do trabalhador e não pode ser feito desconto em folha.

 

VALOR ECONÔMICO

Editorial

Ciclo de expansão da economia global está perto do fim
Os motores da economia mundial estão perdendo força e os riscos de uma desaceleração forte aumentaram. Depois de o Federal Reserve decidir interromper seu ciclo de alta dos juros, hoje deve ser a vez do Banco Central Europeu abandonar qualquer perspectiva de aperto de liquidez e, ao contrário, sinalizar que novas rodadas de injeção monetária podem ser necessárias. A zona do euro está mais perto da recessão, mesmo com juros negativos há meia década.
Os últimos números sobre a indústria e serviços mostram um enfraquecimento geral das atividades nos principais países do mundo. Os Estados Unidos estão descendo do pico de crescimento, de 4,2%. O PIB encerrou o ano com avanço de 2,6% (sujeito a revisões) e caminha para 2%, sua tendência de longo prazo, em 2020. Esse declínio gradual, e ainda distante de recessão, pode ser acelerado pelo aumento dos riscos globais. Donald Trump não encerrou ainda sua guerra comercial com a China, nem sua escalada protecionista, cujos primeiros resultados foram ruins. O EUA tiveram em 2018 o pior déficit comercial em uma década, de US$ 621 bilhões. O esfriamento europeu e das economias asiáticas dão um viés de baixa às projeções de crescimento do país.
No Congresso Nacional do Povo, a China confirmou que segue em trajetória lenta, segura e gradual rumo ao desaquecimento. O primeiro ministro Li Keqiang, disse ontem que a economia vive momentos difíceis e traçou a meta de crescimento para algo entre 6% e 6,5%, abaixo dos 6,5% de 2018. Estimativas de analistas privados indicam que a China já está crescendo abaixo disso. Novos impulsos fiscais e monetários têm sido aplicados para obter o que os dirigentes do PC chinês querem.
A segunda maior economia do mundo caminha mais devagar sob o peso de um enorme fardo de dívidas – 230% do PIB, e crescendo. O governo faz a sintonia fina de uma política de estímulos
contínua, que visa fazer o dinheiro chegar a pequenas e médias empresas, diminuir o peso dos impostos em setores em crise como o automobilístico e reduzindo imposto de renda para os consumidores, ao mesmo tempo em que pacotes de investimentos em infraestrutura anunciados atingem cerca de US$ 250 bilhões. O PC busca um equilíbrio delicado, pois precisa desincentivar simultaneamente o mercado bancário paralelo e o setor imobiliário, origem de bolhas de crédito ainda não estouradas.
Os indicadores chineses mostram aumento da fragilidade. A indústria voltou a se contrair em fevereiro, quando atingiu seu menor nível em três anos. O emprego nas indústrias exportadoras
cai há 64 meses, da mesma forma que diminuem as encomendas externas. A ofensiva tarifária de Trump coloca mais dificuldades em um complexo processo de redirecionamento da economia. O comportamento da China arrasta consigo as demais economias asiáticas. O Japão continua com expansão baixa e instável. A indústria se retraiu em fevereiro e as exportações no mês tiveram a maior queda desde outubro de 2016. Os índices de gerente de compras da indústria mostram também encolhimento na Tailândia e Malásia, e recuo no Vietnã e Filipinas.
O ambiente tornou-se propício para surpresas negativas. Crescimento em queda torna mais difícil pagamento de dívidas e no mercado corporativo (bonds) empilham-se hoje US$ 1,3 trilhões em títulos, o dobro do que existia na crise de 2008. Os papéis dos emergentes compõem 15% do total, e os das endividadas empresas chinesas, a metade disso. Por outro lado, os juros muito baixos ou negativos incentivam a tomada de riscos.
Os elevados déficits nos países desenvolvidos tornam difícil executar políticas de estímulos fiscais em caso de recessão, em um momento em que a normalização da política monetária foi
prematuramente interrompida, com trilhões de dólares ainda nos ativos dos principais bancos centrais. No auge da recuperação pós-crise de 2008 a inflação não disparou e o risco volta a ser
o de um mergulho paulatino dos preços. Isto encontrará o BC sem novas armas para enfrentar a crise.
O temor de fortes desvalorizações cambiais nos emergentes é possivelmente menor agora. O dólar tem-se valorizado porque a economia americana está em muito melhor forma que as demais e a moeda é o refúgio seguro em tempos de crise. Além disso, em relação aos fundamentos, o real encontra-se mais perto do equilíbrio. Fora a desvalorização, que pode ser limitada, haveria um alto risco se os juros subissem muito no exterior. Não é o que deve ocorrer. As ameaças para a economia brasileira vem mais do cenário interno e se materializarão se o governo não for capaz de colocar sua dívida em trajetória de declínio sustentável.

 

CORREIO BRAZILIENSE

Brasília-DF
Denise Rothenburg

Não emplaca, mas incomoda
A intenção de alguns deputados de cavar um processo de impeachment contra o presidente por causa do vídeo escatológico postado no Twitter não vai passar da espuma. Porém, se for mesmo apresentado, o DEM, do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, terá em mãos um instrumento tão poderoso quanto aquele que Eduardo Cunha sacou contra a presidente Dilma Rousseff em 2016.
Por isso, a intenção dos governistas é cobrar que Rodrigo Maia arquive de pronto qualquer proposta nesse sentido, como prova de apreço ao governo. Se não o fizer, será visto como uma declaração de animosidade.

Assunto esquecido
Nas postagens do presidente Jair Bolsonaro no Twitter, nos últimos dias, teve Lava-Jato da Educação, Exército e até vídeo escatológico, mas nada de reforma da Previdência. No parlamento, os líderes repetem um mantra: ou ele entra, ou a Casa vai achar que a nova Previdência não é tão prioritária assim.

Afunilou
Rodrigo Maia aproveita estes dias de marasmo no Congresso para cuidar do relator da reforma. Já decidiu que não será nem do seu partido, o Democratas, nem do PSL. No DEM, para não deixar a legenda responsável pelo tema polêmico. E no PSL, comenta-se nos bastidores, por falta de gente experiente para segurar o tranco.

Sem pressa
Cresce entre os parlamentares a visão de que, se o governo apresentou um novo projeto de reforma da Previdência, é porque não tem urgência na votação do texto. Se tivesse, teria aproveitado parte da proposta que tramitou no ano passado.

O X da questão
Deputados estão convictos de que o governo só apresentou uma nova proposta porque deseja a desconstitucionalização do tema para facilitar outras mudanças no futuro.

Siga o general!
Em conversas reservadas, os líderes partidários que não têm intimidade com o presidente Jair Bolsonaro são quase que unânimes em afirmar que ele deveria se espelhar mais no comportamento do vice, o general Hamilton Mourão, que a cada dia conquista mais simpatias.

Siga o general II
Alguns, que demonstravam no passado recente alguma reserva ao vice, hoje o chamam carinhosamente de general “Mozão”.

A velha política impera
Quem esperava que os novos deputados mudassem a rotina do parlamento está a caminho da frustração. Lá se vai quase um mês e meio, e as comissões não foram instaladas e sessões deliberativas só mesmo a partir de 12 de março.

Nem tudo está perdido
Apesar da calmaria desta semana, Rodrigo Maia (foto) já avisou a interlocutores que, a partir da semana que vem, acabou a moleza. O contribuinte agradece.

Nas entrelinhas
Luiz Carlos Azedo

A chuva dourada
Desde “Pelo telefone” (Donga), composta em 1916, no quintal da casa da Tia Ciata, na Praça Onze, a relação do samba e do carnaval com os bons costumes e a ordem instituída foi tensa. A letra original do primeiro samba, “O chefe da folia/ Pelo telefone / Mandou me avisar / Que com alegria / Não se questione / Para se brincar”, foi alterada para a versão mais conhecida hoje em dia, “O Chefe da Polícia / Pelo telefone/ Manda me avisar/ Que na Carioca / Tem uma roleta/ Para se jogar”. Composto por Sinhô e gravada em 1928 pelo seu aluno de violão, Mário Reis, e depois por Aracy Cortes e Noel Rosa, o samba “Jura”, mais recentemente gravado por Zeca Pagodinho, nasceu no teatro de revista, com uma letra que insinua o sexo não-convencional: “Jura. Jura de coração/ Para que um dia/ Eu possa dar-te o meu amor/ Sem mais pensar na ilusão/ Daí então dar-te eu irei/ Um beijo puro na catedral do amor.”
No começo dos anos 1970, uma professora primária escandalizou o país ao exibir os seios num baile do Clube Sírio e Libanês, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Era uma época em que as grandes sociedades, como o Clube dos Democráticos e os Tenentes do Diabo, estavam em absoluta decadência, o desfile de escola de samba ainda era na Avenida Presidente Vargas e os blocos de massa, apenas dois, Cacique de Ramos e Bafo da Onça. Quem quisesse brincar na rua os quatro dias de carnaval no Rio de Janeiro teria de ir à Avenida Rio Branco e correr atrás dos chamados blocos de sujo, que se formavam quase espontaneamente.
A Banda de Ipanema, que desfilara a primeira vez em 1965, inspirando o surgimento de dezenas de bandas pela cidade, fez renascer das cinzas o carnaval de rua. Sua musa inspiradora, a atriz Leila Diniz, com seu biquíni bem-comportado, escandalizara a cidade ao exibir na praia o barrigão da gravidez. Criada por Ferdy Carneiro, Albino Pinheiro, Jaguar, Ziraldo, Sérgio Cabral, o pai, e demais integrantes de O Pasquim, a banda reunia os protagonistas do cinema novo e da bossa nova, era um contraponto satírico a inúmeras proibições à cultura feitas pelo regime militar.
Com o tempo, os bailes nos clubes foram ficando cada vez mais permissivos; os desfiles de escolas de samba mais luxuosos e glamourizados; a folia de rua, mais popular e democrática. O gigantismo da Banda de Ipanema levou ao surgimento de outros blocos na Zona Sul carioca, como o Simpatia é Quase Amor, inspirado num personagem de Aldir Blanc. O carnaval, com sua força transgressora, foi a vanguarda da revolução dos costumes, em curso no mundo ocidental, desde as manifestações de 1968.
Naquela época, tudo acabava a zero hora de Quarta-feira de Cinzas. Apenas dois blocos desfilavam no Rio de Janeiro depois disso: “O que é que eu vou dizer em casa”, que reunia os foliões mais exaltados, que saiam do xadrez da antiga Delegacia de Averiguações, na Avenida Presidente Vargas; e o “Chave de Ouro”, liderado por playboys do Cine Imperator, na Avenida Dias da Cruz, no Meier, subúrbio carioca da Central do Brasil, que promoviam um jogo de gato e rato com os policiais mobilizados para impedir a folia.

Pornografia
Em mais de 100 anos, ninguém conseguiu conter os foliões, a liberação dos costumes nem os excessos dos mais exaltados. O vídeo divulgado pelo presidente Jair Bolsonaro, a partir de sua conta no Twitter, condenando a festa popular, é o flagrante de um fato isolado, num bloco da Bela Vista, bairro boêmio de São Paulo. As cenas obscenas de um homem urinando na cabeça de um travesti, que havia se masturbado, sobre um ponto de ônibus, porém, não poderiam ser generalizadas, por mais permissivo e erotizado que esteja o carnaval. Muito menos compartilhadas. Pornográfico, o vídeo viralizou nas redes sociais e espantou o mundo, literalmente.
Ontem, Bolsonaro se fez de desentendido e perguntou no Twitter: “O que é golden shower?”. A tradução significa “chuva dourada”, uma prática sexual escatológica. Não se sabe se a autoria foi do próprio presidente ou de seu filho caçula, o vereador carioca Carlos Bolsonaro, que opera suas redes sociais. A postagem virou chacota na imprensa mundial, porém, mobilizou os partidários do presidente da República, que lidera uma campanha moralista e ganhou as eleições com uma agenda pautada pela defesa da família. A rigor, deveria estar mais preocupado com a reforma da Previdência e a articulação da base governista na Câmara do que com o carnaval.
Viva a Mangueira!!!

 

DIÁRIO DO PODER
Cláudio Humberto

VIEIRA ESPANTOU BOLSONARO RELATANDO AFANO NA CNI
Espantou o presidente Jair Bolsonaro o relato de Eduardo Eugênio Gouveia Vieira, titular interino da Confederação Nacional da Indústria, sobre o escândalo de corrupção na entidade. “Recebi o cara da CNI há pouco e estou impressionado com o que estavam fazendo com este País”, desabafou Bolsonaro, de cenho cerrado, sobre sua audiência a Vieira, instantes antes de iniciar a conversa com jornalistas, dias atrás. A coluna tentou saber detalhes da conversa, mas Vieira não quis falar.

METERAM A MÃO
Gouveia Vieira fez a caveira do presidente afastado da CNI, Robson Andrade, detalhando a roubalheira revelada pela Operação Fantoche.

BEM INFORMADO
Nem precisava: Bolsonaro estava informado dos detalhes da apuração da Polícia Federal, antes mesmo de serem detalhadas publicamente.

ESQUEMA ANTIGO
A PF investiga afano de mais de R$400 milhões usando uma agência de viagens do Recife, terra do ex-presidente da CNI Armando Monteiro.

SONHO SONHADO
Titular do conselho nacional do Sesi, o ex-presidente da Firjan Gouveia Vieira é candidatíssimo a se efetivar na presidência da CNI.

MOURÃO RECUA NO APOIO A DECISÕES DE BOLSONARO
O vice-presidente Hamilton Mourão escolheu a semana de carnaval para sinalizar que não vai cumprir o compromisso de assumir como sua qualquer decisão do presidente Jair Bolsonaro. É que ele não agiu assim no caso da socióloga Ilona Szabó, cujo desconvite para integrar Conselho de Política Criminal e Penitenciária foi decisão de Bolsonaro. Mourão criticou o fato de a colunista da Folha ter sido desconvidada: “perde o Brasil”, afirmou. Questionado, ele não comentou seu recuo.

AINDA PROMETE MUDAR
O vice-presidente acha que o País perde por não sentar à mesa “com gente que diverge”. E foi bem mais além: “temos que mudar isso aí”.

PROMESSA SOLENE
Mourão disse à Rádio Bandeirantes, há duas semanas, que continuaria opinando, mas adotaria (e defenderia) qualquer decisão do presidente.

IRRITAÇÃO NO PLANALTO
Bolsonaro costuma telefonar reclamando de declarações de ministros e do vice. O tempo certamente fechou entre os dois.

CASAMENTO DE IGUAIS
A campeã de votos Janaína Pachoal (PSL) encara a aliança PT-PSDB para eleger Cauê Macris presidente da Assembleia Legislativa paulista: Conchavo que mais parece casamento de jacaré com cobra d’água.

MAIS UM CAPÍTULO
Olhando com lupa, a nova tentativa do Ministério Público Federal de envolver Gilmar Mendes com investigados é mais um capítulo da velha briga de procuradores com o ministro. Na presidência do STF, ontem, só se falava nas advertências de Gilmar sobre ‘tentativa de intimidação’

NOTÍCIAS DO MUNDO DO CRIME
A juíza aposentada Denise Frossard, celebrizada pelo enfrentamento a essa corja, deve ter achado no mínimo curioso observar na Sapucaí bicheiros e traficantes abraçando o discurso esquerdista no Carnaval.

PERGUNTA NA LOTÉRICA
Se na Mega-Sena Caixa arrecadou em 2018 mais de R$800 milhões e pagou apenas R$69 milhões em prêmios, por que diabos seu atual presidente só fala em privatizar justamente a área que dá tanto lucro?

SEM PERIGO DE DAR CERTO
O ex-governador Ronaldo Lessa (PDT), que não distingue pepino de cenoura, virou secretário de Agricultura de Alagoas. Com a maior pinta de quem se vê na cadeira de piloto de Boeing sem nunca ter voado.

ABAIXO A INDEPENDÊNCIA
Barça e Girona jogaram ontem a final da “Supercopa da Catalunha”. Razão de sobra para ser contra a separação de Barcelona da Espanha: La Liga se resumiria ao derby Real x Atletico e os únicos rivais do Barça seriam Girona e Espanyol, no campeonato catalão. Que tristeza.

DESERTO DOS DEPUTADOS
A agenda da Câmara previa “sessão de debates” nesta Quarta de Cinzas, em Brasília. O sistema de presença da Casa registrava apenas seis (meia dúzia) de parlamentares até às 16h de ontem.

QUE VERGONHA
Projeto de Roberto de Lucena (Pode-SP) pretende estender imunidade tributária a imóveis que ficam no mesmo terreno de igreja. Para piorar, o projeto tramita conclusivamente, ou seja, nem precisa ir a Plenário.

PENSANDO BEM…
…postagens de Bolsonaro no Twitter fazem lembrar a necessidade do VDM, o assessor encarregado de advertir: “Vai Dar M(*), presidente”.

 

VEJA

Radar
Maurício Lima

Onyx pressiona ministro por retomada do Minha Casa Minha Vida
Programa será retomado
Depois de dois meses parado, o Governo Federal quer retomar o Minha Casa Minha Vida, liberando 1,3 bilhão de reais para o financiamento de unidades habitacionais a partir de março.
A grita da indústria da construção civil falou mais alto e chegou a Paulo Guedes num momento em que a taxa de desemprego voltou a subir.
Já no campo político, o ministro do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, foi cobrado pelo colega Onyx Lorenzoni.
Responsável pela articulação política do governo, Lorenzoni ouviu queixas de parlamentares de todas as regiões e partidos, e fez dura cobrança a Canuto.

Governistas ameaçam “desmanche geral” se Bolsonaro receber Daniela Mercury
Ameaça foi feita por Alexandre Frota (PSL-SP) em suas redes
Deputados da base de Jair Bolsonaro ameaçam com um “desmanche geral” se o presidente receber em audiência Daniela Mercury. O deputado Alexandre Frota (PSL-SP) postou o recado duro:
“Se souber que o governo Bolsonaro recebeu Daniela Mercury ou qq artista do vídeo #ele não, eu e diversos deputados – entre eles Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), Marco Feliciano (Pode-SP) e José Medeiros (Pode-MT) – vamos iniciar uma operação desmanche geral. Que fique claro, @Jair Bolsonaro, @Osmar Terra”.
Terra é ministro da Cidadania, pasta que cuida hoje da Lei Rouanet. Bolsonaro e a cantora baiana trocaram rusgas durante o Carnaval. O presidente se sentiu atingido por um vídeo no qual ela e Caetano Veloso aparecem cantando uma canção que critica a censura.
Bolsonaro disse que ela é beneficiária da lei. Mercury, então, pediu audiência no Planalto para tratar do assunto. Não houve resposta até agora.

Odebrecht, OAS e Camargo Corrêa teriam pago para executivos delatarem
Ajuda de custo
Quem teve contato com uma ação trabalhista da Camargo Corrêa que corre em segredo no TRT-SP, movida pelo ex-vice-presidente Eduardo Leite, garante que o processo versa sobre práticas parecidas com a da OAS, que teria pago 6 milhões de reais para delatores alinharem depoimentos aos interesses da empreiteira.
A Odebrecht seria outra adepta da prática. Em depoimento a Lava-Jato, o ex-executivo Rogério Santos de Araújo diz que recebe uma ajuda mensal da empresa “dentro de um programa” acordado entre eles.

Alcolumbre aberto a negociações
Por outro lado, ele não impressiona por seus conhecimentos técnicos como presidente do Senado
Davi Alcolumbre tem causado uma boa impressão. Quem esteve com o novo presidente do Senado afirma que ele é receptivo a negociação, mas não é muito bom tecnicamente. O temor mesmo é que ele seja um satélite de Onyx Lorenzoni.

Membros do PSL atacam a secretária nacional de desenvolvimento
Acusação é de que ela é petista – como se crime fosse
Circula em grupos do PSL o currículo de Adriana Melo Alves, secretária nacional de desenvolvimento regional e urbano.
A tentativa de intimidação contra Adriana é a acusação de que ela é petista, por ter estreado no ministério durante a gestão Dilma Rousseff, como se crime fosse votar 13 nas urnas. “Tem que passar a lupa”, diz a mensagem com seu currículo anexado.
Pois bem.
O currículo de Adriana é invejável. Servidora pública desde 2004, Adriana Melo é arquiteta e urbanista, com doutorado em Produção do Espaço Urbano, Rural e Regional, pela Universidade de Brasília (UnB).
Possui especialização nas áreas de desenvolvimento regional, urbano e planejamento.

Olavo de Carvalho metralha Mourão
Guru da ala mais lunática do governo ataca vice-presidente
“Guru” da ala mais radical e exótica do governo Bolsonaro, Olavo de Carvalho voltou à ativa nesta quarta (6).
Ele publicou uma série de mensagens em que ataca o vice-presidente, o general Hamilton Mourão.
É uma retaliação à fala em que Mourão lamenta a saída de Ilona Szabó do conselho de segurança criado pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro.
“O general Mourão tem de ser imediatamente aposentado e enviado para casa para jogar futebol-de-botão com os netinhos e reaprender as regras elementares da convivência humana”, escreveu.
“Nunca, nunca, nunca pude imaginar que haveria, nas nossas Forças Armadas, um homem com essa mentalidade”, prossegue.
“Sinceramente, não acredito que um tipo como o general Mourão tenha o direito moral de dar opinião sobre o que quer que seja”, diz.
“Quanto mais a esquerda mente contra o Bolsonaro e seu governo, mais o Mourão abana o rabinho para ela”, afirma.

Imprensa internacional detona Jair Bolsonaro
Desatino do presidente sobre o carnaval é alvo do ‘New York Times’, ‘Guardian’ e ‘Independent’
O vexaminoso tuíte de Jair Bolsonaro sobre o carnaval já repercute na imprensa internacional.
O “New York Times” começa seu artigo dizendo que o artigo sobre o presidente da quarta maior democracia do mundo “contém um vídeo com forte conteúdo sexual” e que o jornal “fez o possível para mantê-lo digno”.
De acordo com o “Times“, o carnaval brasileiro tem uma “abundância de trajes sexualmente sugestivos e não faltam demonstrações públicas de afeto. Mas as cenas destacadas por Bolsonaro seriam tratadas como aberração caso acontecessem nos blocos de rua”.
O jornal americano prossegue.
“O que isso tudo nos diz sobre a era Bolsonaro? Para começar, fica evidente que Bolsonaro é tão impulsivo nas redes sociais como presidente quanto foi como candidato. Assessores e aliados vêm expressando, continuamente, desconforto com presidente, que continua a conduzir o país através do WhatsApp”.
Já o britânico “Independent” vê no tuíte de Bolsonaro uma tentativa de desacreditar os protestos que ele sofreu durante o Carnaval.
“O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, postou um vídeo sexualmente explícito no Twitter em uma aparente tentativa de desacreditar o Carnaval de São Paulo, um festival anual de rua da cidade, que contou com protestos contra sua agenda de extrema-direita”, escreveu a publicação (veja abaixo).
O “The Guardian“, por sua vez, diz que Bolsonaro foi ridicularizado em seu próprio país pela postagem.
“O presidente de extrema-direita do Brasil, Jair Bolsonaro, provocou indignação, nojo e ridicularização depois de tuitar um vídeo pornográfico em uma aparente tentativa de revidar as críticas de seu governo durante o carnaval deste ano”, escreveu o “Guardian”.
A publicação destaca ainda que um bloco de Carnaval realizado na frente da casa de Bolsonaro, na orla da Barra da Tijuca, no Rio, denunciou as supostas ligações da família de Flávio Bolsonaro com as milícias.

Deputado vai processar Bolsonaro por tuíte obsceno
Paulo Teixeira (PT) afirma que Bolsonaro cometeu crime
O deputado Paulo Teixeira (PT-SP) afirmou que vai entrar com representação na Procuradoria-Geral da República contra Jair Bolsonaro por sua postagem pornográfica sobre o Carnaval.
Segundo Teixeira, Bolsonaro cometeu crime ao divulgar a imagem de dois homens em gestos obscenos durante um bloco de carnaval em São Paulo.
“Vamos representar Jair Bolsonaro pelo vídeo que postou. A lei 13.718, recentemente aprovada, tipifica o crime de divulgação, sem o consentimento da vítima, de cena de sexo, nudez ou pornografia”, escreveu.

Blog do Noblat
Ricardo Noblat

Réveillon fora da cadeia
Apure-se
A polícia do Distrito Federal investiga a denúncia de que um condenado pela justiça por corrupção e preso na Penitenciária da Papuda pagou uma soma extraordinária de dinheiro para passar o Réveillon com a família em uma mansão do Lago Sul de Brasília.
Para isso ele teria subornado um carcereiro e saído escondido dentro do carro dele. Voltou no dia seguinte bem cedo.

Sai de cena o 02. Entra o 03
E segue o baile…
Quanta falta faz o 02, conhecido também pelo nome de Carlos Bolsonaro, vereador no Rio, que mais de uma vez já atacou o vice-presidente Hamilton Mourão, e que outro dia, em nome do pai ou dele mesmo demitiu o ministro Gustavo Bebianno da Secretaria-Geral da Presidência da República.
Aparentemente, ele foi posto pelo pai no banco de reservas para poder voltar a campo a qualquer momento, mais descansado e em plena forma. Na ausência do 01, o senador Flávio, machucado desde que os rolos do motorista Queiroz se misturaram com os seus, o jeito foi pôr em campo o 03, de nome Eduardo, deputado federal.
Mais inclinado a abordar temas de relevância internacional como a construção do muro para separar os Estados Unidos do México e a formação de um bloco de partidos de direita para governar o mundo, Eduardo se viu forçado a sair em defesa do pai em assuntos domésticos do tipo homem que mija na cabeça do outro e coisas afins.
Então Eduardo escreveu no Twitter: “O cara toma banho de mijo em público, mostra o ânus de cima de um local alto para todos verem, mas o problema é o JB que compartilhou. (…) A esquerda é doente. Ora aplaude professora que defeca em público, ora se escandaliza com uma pessoa tomando banho de mijo. Tem que decidir o que quer”.
As manifestações do pai e do filho fizeram a República perder a fala. Ninguém os socorreu. Mas sob a garantia do anonimato, deputados e senadores de partidos com todas as cores, e ministros de tribunais superiores se disseram horrorizados com a performance deles. Espera-se que a Quaresma serene os espíritos.

O chá que Bolsonaro tomou
Um presidente que não respeita os governados não se dá ao respeito
Roga-se a quem possa informar sobre o tipo de chá que o presidente Jair Bolsonaro tomou durante o carnaval, se possível o nome do fabricante, e onde o chá pode ser encontrado.
Mais preciosa ainda para quem se preocupa com o futuro seria a informação sobre se ele não tomou chá algum, se tem agido, portanto, unicamente de acordo com o seu pleno juízo.
Depois de escandalizar o país e o mundo com o compartilhamento de um vídeo onde um homem passa o dedo no ânus, e outro urina em sua cabeça, Bolsonaro indagou no Twitter: “O que é ‘Golden shower’?”
Se a pergunta refletisse de fato sua ignorância, ele teria feito melhor se a dirigisse a qualquer um dos seus garotos, ou a um assessor. Ao fazê-la numa rede social, o que ele quis foi causar. E causou.
“Golden shower” é um termo em inglês que, ao pé da letra, significa “chuveiro dourado”. Refere-se a uma prática sexual em que um parceiro ou parceira urina no outro.
Se nunca antes na história deste país um presidente havia se despido da majestade do cargo para abordar publicamente o que se passa debaixo dos lençóis alheios, Bolsonaro o fez.
Em seu socorro saiu a Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República que, em nota, negou o que o presidente da República escrevera sobre o vídeo pornográfico.
Ao compartilhá-lo, Bolsonaro escreveu a propósito da cena que ocorreu em cima de um ponto de ônibus em São Paulo: “É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro”.
Bloco não desfila em cima de ponto de ônibus. Não se sabe sequer se os dois homens faziam parte de algum bloco. Nada de parecido foi flagrado durante o carnaval em qualquer outra parte do país.
A nota da Secretaria que desmente o que Bolsonaro escreveu informa que o presidente não teve a intenção de criticar “o carnaval de forma genérica, mas sim caracterizar uma distorção do espírito momesco”.
Quando se imaginou que a folia presidencial havia cessado, Bolsonaro decidiu bater boca com o ator José de Abreu que, hoje, mora na Grécia, mas que em breve estrelará uma nova novela na Globo.
Abreu autoproclamou-se presidente do Brasil só para ironizar Juan Guaidó, que fez o mesmo na Venezuela. Em mensagem postada no twitter para anunciar o seu retorno do país, Abreu disparou:
“Seu meteoro chegou. Sou eu, seu fascista”, dirigindo-se a Bolsonaro. Que logo em seguida respondeu: “Estamos processando alguns e este ‘meteoro’ será o próximo”. Abreu deve ter delirado de alegria.
Um presidente que não respeita os governados não se dá ao respeito.

 

BLOG RISCOS E TENDÊNCIAS
José Maurício dos Santos

Governabilidade: Bolsonaro deve escolher entre pauta moral ou econômica
O presidente Jair Bolsonaro (PSL) parece ainda não ter se dado conta da importância do cargo para o qual foi eleito. Ele se comporta muitas vezes como se ainda fosse um deputado federal falando para o seu restrito público ultradireitista que o elegera naqueles tempos.
Há pouco mais de dois meses no Palácio do Planalto, Bolsonaro chama mais atenção por suas postagens no Twitter para apagar incêndios, quando não, com um galão de gasolina para iniciar outro, em detrimento dos árduos desafios que tem pela frente como a crise na Venezuela, a reforma da Previdência, o desemprego, entre outros.
Na última semana, Bolsonaro mais uma vez entrou no Fla x Flu, entre os conservadores sociais e a esquerda, e se mostrou mais preocupado com os costumes morais da sociedade do que com as questões econômicas para tirar o Brasil da crise. Ele compartilhou um polêmico vídeo em seu Twitter. O conteúdo mostra um homem urinando em outro, que dançava em cima de um ponto de táxi introduzindo o dedo no ânus, em público, durante um bloco de rua do Carnaval paulista. O presidente então instigou a população à crítica:
“Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro. Comentem e tirem suas conclusões (sic)”.
A atitude do presidente teve diversas reações, prós e contras, por parte da sociedade. No entanto, a Lua de Mel com seu eleitorado está cada vez mais restrita ao segmento mais conservador no âmbito social, o que pode afetar a sua popularidade nas ruas e, consequentemente, o seu apoio no Congresso, do qual depende para aprovar propostas imprescindíveis para alavancar a economia brasileira. O populismo empregado pelo governo pode ter um efeito contrário do desejado, dividindo ainda mais a opinião pública e agradando apenas uma parcela específica do seu eleitorado, como a aposentadoria dos militares, a posse de arma de fogo e questões morais.
A base aliada já se mostrou fragmentada ao derrubar o decreto de sigilo de informações editado no início do mandato, em detrimento da Lei de Acesso à Informação. Vale ressaltar que a dificuldade de mobilização de apoio para temas mais divergentes como a reforma da Previdência é muito maior, ainda mais se tratando de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que exige uma maioria qualificada de ambas as Casas do Congresso para ser aprovada.
O tempo urge. E o déficit nas contas públicas aumenta a cada dia. Na Câmara, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC) – a primeira a analisar o texto da nova Previdência, ainda nem foi instalada. O Planalto também não enviou o texto que trata da aposentadoria dos militares, uma das exigências dos congressistas para deliberar sobre as regras gerais da Previdência.
Outra questão são as interferências dos filhos do presidente com questões palacianas que causam turbulência na governabilidade de Bolsonaro, como o caso de Gustavo Bebianno, recém-exonerado da Secretaria-Geral da Presidência após ser fritado publicamente por Carlos Bolsonaro nas redes sociais com o apoio de Bolsonaro pai, que compartilhou as postagens do chamado “zero dois”.
A comunicação do governo melhorou com a entrada de um porta-voz no Planalto, mas de nada adianta alguém à frente desse cargo se as redes sociais ainda ofuscam o seu papel.
A articulação na Câmara também não é das melhores. A insistência no Major Vítor Hugo (PSL-GO) na liderança do governo na Casa, contrariando a base aliada, deixa essa relação ainda menos azeitada. O deputado, que teve apenas 31 mil votos, é visto com desconfiança por aliados, principalmente por aqueles que foram eleitos independente do apoio de Bolsonaro. A relação ficou ainda mais estremecida após a tentativa frustrada do líder do governo tentar convocar o colegiado de líderes via Whatsapp, esquecendo que política se faz com olho no olho. E o que é firmado nos bastidores, muitas vezes, vale mais do que está publicado na mídia.
Como se diz no Brasil, “o ano começa após o Carnaval”. Em que pese essa máxima, após dois meses de mandato, Bolsonaro desconstruiu mais do que construiu a sua imagem perante o eleitorado. Está na hora de separar os homens dos meninos, o joio do trigo, e focar no que interessa, de fato: a economia ou as questões morais. A verdade é que para haver mudanças significativas em ambos os segmentos, é necessário a governabilidade. E ela é medida por uma série de fatores que resultam no capital político. E em tempos de vacas magras e com o discurso da nova política em detrimento do pragmatismo, o Planalto hoje não tem capilaridade para lidar com questões morais e econômicas, simultaneamente, num cenário de polarização em que o Brasil se encontra.

 

BLOG DO JOSIAS
Josias de Souza

Jair Bolsonaro caluniou país que deveria presidir
O caso do vídeo escatológico que Jair Bolsonaro veiculou na sua página oficial no Twitter é mais do que um mero atentado contra o bom gosto, o bom senso e o decoro. Ao afirmar que cenas como a do sujeito que manipula o ânus em público e recebe um banho de urina tornaram-se comuns no Carnaval de rua do Brasil, Bolsonaro entrou para a história como um caso único de presidente da República que comete calúnia e difamação contra o seu próprio país.
“Temos que expor a verdade para a população ter conhecimento”, escreveu Bolsonaro na legenda do vídeo. “É isto que têm virado muitos blocos de rua no Carnaval brasileiro”, ele completou. O que Bolsonaro disse, com outras palavras, foi o seguinte: “A obscenidade praticada por essas duas pessoas do vídeo é repetida Brasil afora por milhares de brasileiros. É comum.” Ora, não é preciso gostar do Carnaval para saber que isso é uma mentira.
Comum mesmo nos blocos carnavalescos de 2019 foi a associação que os foliões fizeram de Bolsonaro com os candidatos laranjas do PSL e com Fabrício Queiroz, o personagem cítrico que azeda os humores da família presidencial. A irritação com a cor alaranjada das fantasias não dá a Bolsonaro o direito de levar o Carnaval às manchetes internacionais como uma grande festa popular em que os brasileiros saem às ruas para sambar e uninar uns sobre os outros.
A deseducação e a desinformação sempre fizeram parte da personalidade política de Bolsonaro. Mas a Presidência lhe deu uma tribuna vitaminada, que ele potencializou ao encostar o Planalto nas redes sociais. De um presidente, espera-se que aproveite esse palanque privilegiado para irradiar confiança e bons exemplos. Bolsonaro vem espalhando ódio e desinformação. Talvez devesse fazer uma concessão ao decoro. Do contrário, vai acabar agigantando o general Hamilton Mourão, conferindo à vice-presidência, pelo contraste, um conteúdo de inusitada moderação.

 

BLOG DO MURILLO DE ARAGÃO

Sobre o populismo
O debate ideológico no mundo contemporâneo tem certas características que às vezes não são percebidas. Uma delas é o fato de que, a partir dos anos 1980, iniciou-se um movimento de convergência política para uma espécie de centro alargado que abarca soluções de direita e de esquerda. No Brasil, os governos de Itamar Franco, FHC e Lula são exemplos — tempos em que as posições e os escritos do sociólogo Anthony Giddens eram exaltados. Outra característica de nossos dias é que, além do surgimento do centro alargado — ou terceira via, como identificado por alguns —, pouco aconteceu. Ao menos no mundo ocidental. Vivemos limitados pelos antolhos da direita e da esquerda e suas subdivisões propostos ainda no século XIX. Apenas o fortalecimento das teocracias ameaçou o debate ideológico binário.
A terceira característica é a permanência do populismo como processo de embalagem desse debate. De modo geral, o populismo propõe uma narrativa na qual o interesse do povo, do cidadão comum, deve ser imposto sobre o interesse das elites. Mas a questão não é simples, já que muitas elites se apropriam de discursos também populistas. O populismo tende a fazer com que os governos orientem suas decisões pela sensação térmica positiva que provoca na população. O pragmatismo é orientado pela capacidade de agradar a maioria. Tudo destinado à perpetuação do núcleo político que comanda o show. Assim, o controle do processo político tem no uso intensivo do populismo um recurso primordial. E o populismo vem se revelando mais importante do que as próprias ideias que o movem, independentemente da matriz ideológica.
A sua explosão se relaciona com a banalização da cultura, a decadência da imprensa e a emergência da civilização do espetáculo. Mas sobretudo com uma política que não se baseia em princípios éticos e morais.A relação do populismo com as ideologias gera narrativas autoalimentadoras de regimes autoritários, tanto de esquerda quanto de direita, bem como nas teocracias. E esse mecanismo abastece o fluxo de informações superficiais, espetaculosas e efêmeras, que apelam mais para os efeitos especiais do que para a racionalidade. O lulismo é um exemplo do elitismo de esquerda que se propôs popular e extrapolou no populismo. Recolheu milhões de reais em doações partidárias e eleitorais e naufragou na corrupção para defender os privilégios de uma elite e se perpetuar no poder. Os lulistas jamais farão autocrítica sobre o seu populismo. Aliás, populismo e privilégios andam muito mais próximos do que se pensa. E são um disfarce magistral para fascistas de todos os matizes ideológicos.



Jose Mauricio dos Santos
Autor: Jose Mauricio dos Santos
Jornalista, Cientista Político e especialista em Marketing Político.

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