Backstage News Brasil 08/03/2019 – Ingerência de Bolsonaro com o Congresso alerta o mercado

O Backstage News é um produto diário da Tracker Consultoria que reúne os principais colunistas de política do País com informações dos bastidores do Poder.

 

FOLHA DE S. PAULO

Painel
Daniela Lima

Sem venda nos olhos
Os tropeços de Jair Bolsonaro começaram a abalar a confiança de grandes investidores nacionais em sua gestão, o que ampliou a sensação do Congresso de que ou o presidente se rende a um pacto político, ou terá de se habituar com a ideia de levar o mandato aos trancos e barrancos. Nos últimos dois dias, dirigentes de bancos e corretoras sondaram pessoalmente partidos alinhados ao Planalto sobre as chances de a reforma da Previdência deslanchar. Os relatos não foram alvissareiros.

O cara
A sensação de que Bolsonaro não tem condições de coordenar a agenda do governo ampliou a pressão do mercado sobre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Dia D
Maia esteve nesta quinta (7) com Onyx Lorenzoni (Casa Civil). Segundo aliados, a conversa foi boa, mas não definitiva. O próximo passo é levar dirigentes de outras siglas à mesa de negociações.

Minhas armas
Analistas do mercado dizem que, se a montagem das comissões na Câmara na semana que vem for malsucedida, vai haver repique no dólar e na Bolsa.

Por partes
A equipe econômica estuda enviar a proposta de reforma para os militares fatiada em cinco projetos.

Dividir holofotes
O presidente da Câmara vai instalar comissão para discutir o pacote anticrime de Sergio Moro, mas determinou que o colegiado funcione em parceria com o criado por Dias Toffoli no Conselho Nacional de Justiça. Este é chefiado por Alexandre de Moraes, autor de um projeto anterior que endurece a legislação penal.

Errou a mira
Não surtiu o efeito desejado a tentativa de minimizar em uma live, nesta quinta (7), a fala de Bolsonaro de que só há democracia se as Forças Armadas quiserem.

Ops!
Ao tentar explicar o que disse o presidente, o general Augusto Heleno (GSI) afirmou que ele se referia ao fato de que militares são determinantes para manter regimes, mas listou como exemplo as ditaduras de Cuba e Venezuela.

Prioridades
Na live, Bolsonaro falou 2min24s sobre lombadas eletrônicas, 1min43s sobre cartilhas de saúde que quer recolher por reprovar desenhos de camisinha e vulva, e 1min40s sobre Previdência.

Dose dupla
Movimentos sociais vão tentar repetir nas manifestações marcadas para este 8 de março, Dia Internacional da Mulher, os protestos registrados contra Bolsonaro no Carnaval. Atos sob este mote foram agendados em todas as capitais. A reforma da Previdência também está na pauta.

Dupla não, tripla
Novas marchas estão previstas para a próxima semana, quando o assassinato de Marielle Franco vai completar um ano.

Entrelinha
Em decisão publicada na quarta (6), Edson Fachin reafirmou posição do STF de que é a União quem determina a destinação de valores recuperados pela Lava Jato. O ministro externou o entendimento no momento em que a força-tarefa de Curitiba tenta pôr de pé uma fundação com R$2,5 bilhões.

Chave do cofre
O presidente da Ajufe, Fernando Mendes, diz que a criação de uma entidade é boa ideia, mas defende que o fundo com os recursos seja vinculado ao Conselho Nacional de Justiça e não ao Ministério Público. Para ele, “o CNJ seria o órgão responsável pelo aparelhamento da Justiça de modo mais amplo”.

Supetão
Integrantes do Ministério Público Federal dizem que a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, foi pega de surpresa pelo pedido para defender o afastamento de Gilmar Mendes do caso do ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza. Até a noite desta quinta, ela ainda não havia definido o que fazer.

Mexa-se
Os novos relatos publicados pela Folha de participação do ministro Marcelo Álvaro Antônio (Turismo) no esquema de candidaturas laranjas do PSL em Minas ampliaram o desconforto de ala da sigla. Parlamentares cobram que todo o grupo dele seja afastado de postos de comando do partido no estado.

Tiroteio
Se Paulo Preto decidir abrir a boca e fizer uma delação premiada, vai faltar gaiola para os tucanos de São Paulo
Do senador Otto Alencar (PSD-BA), sobre a situação do ex-diretor da Dersa que foi condenado a 145 anos de prisão por desvio de dinheiro

Mercado Aberto
Cris Frias

Com mulher no comando, resto da empresa fica mais diverso
A presença de uma mulher na chefia faz com que as outras tenham um exemplo de como é possível trabalhar e crescer em um ambiente corporativo, diz a fundadora do Nubank Cristina Junqueira.
“Eu trabalhei em outros bancos e nunca tive uma diretora mulher, alguém para quem pudesse olhar e ter uma referência. Posso relatar inúmeros episódios, que vão dos cômicos até os inoportunos, que passei por causa disso.”
Um corpo mais diverso de chefes consegue ter perspectivas distintas sobre os problemas da empresa, diz ela. “Uma companhia não precisa de cinco diretores homens brancos que estudaram na mesma universidade, precisa de um.”

Mônica Bérgamo

Guedes quer acelerar cobrança de grandes devedores da Previdência
Dívida é de R$ 490 bilhões mas a estimativa é a de que R$ 160 bilhões possam ser recuperados
A equipe de Paulo Guedes quer acelerar o envio, para a Câmara dos Deputados, do projeto que tentará agilizar a cobrança de grandes devedores da Previdência. A dívida é de R$ 490 bilhões mas a estimativa é a de que R$ 160 bilhões possam ser efetivamente recuperados.

PODE PAGAR
Ao mesmo tempo, o governo flexibilizará a cobrança para quem deve menos de R$ 25 mil.

EU COBRO, SIM
Um dos principais argumentos contra a reforma da Previdência é o de que o governo não cobra seus grandes devedores, mas quer endurecer as regras de aposentadoria para os trabalhadores. A equipe de Guedes pretende combater o argumento com a proposta.

VAMOS ESPERAR
Já a reforma para os militares, cobrada pelo Congresso, deve ficar mesmo para o dia 20 de março.

PSIU!
Escalado pelo pai para para ajudar numa estratégia combativa de divulgação da reforma da Previdência nas redes sociais, Carlos Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, mal fala do tema.

JÁ FALEI
Desde que a proposta foi enviada ao Congresso, em fevereiro, Carlos postou seis mensagens sobre a o assunto —de um total de quase cem. Na noite de quinta (7), voltou ao assunto, depois de vários dias em silêncio.

FOCO
Como o pai, ele dedica boa parte de seus textos a questões ideológicas e a ataques à esquerda e à imprensa.

ROADSHOW
E o secretário especial para Previdência e Trabalho, Rogério Marinho, desembarca nesta sexta (8) em SP. Vai à Fiesp e à XP Investimentos falar sobre a reforma.

SOS
A ministra Damares Alves, da Mulher e dos Direitos Humanos, lança nesta sexta (8) a campanha “Salve uma Mulher”. Nela, o maquiador Agustin Fernandez ensinará manicures, cabeleireiras e depiladoras a identificarem sinais de violência no corpo das mulheres.

SINAIS
Fernandez contará quando percebeu que uma mulher era vítima do marido: ela estava feliz da vida depois de um tratamento estético. Recebeu um telefonema dele, mudou o semblante —e pediu que tudo fosse desfeito.

O ESTADO DE S. PAULO

Coluna do Estadão
Alberto Bombig

Serra quer que Guedes abra cálculos da reforma
O tucano José Serra (SP) protocolou requerimento ao ministro da Economia, Paulo Guedes, solicitando a memória de cálculo (discriminação detalhada) da proposta de reforma da Previdência. O governo divulga uma estimativa de economia de R$ 1,1 trilhão, mas não explica como chegou ao valor. O senador acredita que a divulgação dos dados dará maior transparência ao debate. Assim que o pedido for encaminhado, Guedes terá 30 dias para responder. A negativa pode ser classificada como crime de responsabilidade fiscal, diz a Constituição.

Tintim por tintim
No requerimento, Serra, ex-ministro do Planejamento, pede que Guedes explique “separadamente as premissas e hipóteses” adotadas para os cálculos referentes ao Regime Próprio e ao Geral.

Prioridade
O ministro da Defesa, Fernando Azevedo, conversou ontem por uma hora com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. A pasta trata o dia 20 próximo como o prazo máximo para o envio da sua proposta de reforma dos militares.

Captei
Ao anunciar no Facebook que conversará semanalmente com os brasileiros, Jair Bolsonaro atende à sugestão de Olavo de Carvalho: fale diretamente ao povo, não aos jornalistas, recomendou o guru ao presidente na terça-feira.

Bloqueio
De um dos generais de Jair Bolsonaro sobre o polêmico tuíte do presidente durante o carnaval: “Ele não pode ficar sozinho com o celular dele”.

Segue…
Tribunais estaduais seguem concedendo licença-prêmio a magistrados em 14 Estados. Só em MG, o tribunal pagou em fevereiro R$ 29 milhões referentes à metade das licenças não gozadas. O restante será pago ainda este ano.

…o baile
Desde 2017, o Supremo Tribunal Federal avalia se é constitucional o pagamento dessa licença com base na simetria com o Ministério Público, que concede o benefício. A PGR já se manifestou favorável.

Lupa
O deputado Orlando Silva (PCdoB) propôs a criação de uma comissão especial para fazer um pente-fino em todos os subsídios concedidos pela União. Segundo ele, Rodrigo Maia acatou a proposta.

Tête-à-tête
Depois de disparar ligações aos telefones de deputados pedindo votos em Janaina Paschoal para presidente da Assembleia-SP, a militância do PSL agora vai pessoalmente aos gabinetes falar com os parlamentares.

Feirão
Com o Estado em crise financeira, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, vai leiloar na semana que vem carros de luxo que serviam a seus antecessores Marconi Perillo e José Eliton. O valor arrecadado será destinado ao Hospital Materno Infantil. “Não há espaço para mordomias.”

Click
O governo de Goiás leiloará os veículos Hyundai Equus 2011 e Hyundai Equus 2013, que têm lances mínimos de R$ 120 mil e R$ 207,1 mil, respectivamente.

Sinal…
Neste Dia Internacional da Mulher, dados do Ligue 180 mostram crescimento de 36% no número de denúncias relacionadas à violência contra mulheres em comparação com 2018.

…amarelo
A avaliação do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos é de que a alta pode estar relacionada aos episódios de feminicídio.

Delas
O STF abre hoje evento sobre a participação das mulheres na construção de Brasília. Fotografias, obras de arte e até lambretas estarão em exposição.

Pronto, falei!
Augusto Coutinho, líder do Solidariedade na Câmara (PE): “O governo vai ter tanto problema com a Previdência, não é inteligente criar mais problemas com o Congresso”, sobre as propostas de novas regras sindicais.

Eliane Catanhêde

‘Brazil first’
No Itamaraty, ideia é ‘desligar o botão automático’ e rever tradição e multilateralismo
Enquanto o presidente Jair Bolsonaro distrai o digníssimo público com uma barbaridade por dia, o mercado só quer saber da reforma da Previdência e o mundo, os investidores, os exportadores e os importadores perguntam qual é a política externa brasileira. Aliás, se há uma. Se há, pode ser resumida assim: “Brazil first”.
É, obviamente, um plágio do slogan de Donald Trump nos Estados Unidos: “America first”. A questão, levantada por ex-presidentes, ex-chanceleres e diplomatas da ativa é se é “Brazil first” ou se vai acabar sendo “Brazil after America”.
Além de causar perplexidade de novo ontem, ao dizer que “liberdade e democracia só existem quando as Forças Armadas assim o querem”, Bolsonaro enumerou os seus aliados no governo e incluiu aí “aqueles que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa (Brasil)”.
Mais do que uma manifestação de ojeriza a Cuba e Venezuela, foi uma referência à aliança com os EUA e com Trump, pedra fundamental da política externa da “nova era”. Há consenso quanto a aprofundar as relações com a maior potência mundial, tradicional parceira brasileira. A dúvida é sobre a calibragem. Alinhamento automático? Brasil caudatário dos EUA?
Tudo isso vai ficar mais claro no encontro de Bolsonaro com Trump, dia 19. Além da gorda pauta bilateral de negócios, cooperação e facilitação de trânsito de pessoas e produtos, os dois terão muito a conversar sobre temas globais e regionais e interesses estratégicos de EUA e Brasil, como Venezuela e China.
Setores do Itamaraty lembram que Bolsonaro deixou muito claro na campanha eleitoral o que pensava, o que significava e o que pretendia. Logo, o eleitorado chancelou uma forte guinada ideológica no poder e isso, evidentemente, tem reflexo direto no Itamaraty. Na montagem do gabinete, na distribuição das peças no tabuleiro e na própria política externa.
A equipe do chanceler rechaça “caça às bruxas” e diz que os movimentos são naturais. Mudou o governo, muda o Itamaraty. Quanto à política externa, a intenção é “quebrar a inércia”. Ou seja: rever conceitos, práticas e hábitos que vêm de décadas, de governo após governo, como se fossem cláusulas pétreas. “É desligar o botão automático”, resumiu um dos artífices das mudanças, sempre enfatizando que tudo está sendo suave, sem solavancos.
Uma das “verdades absolutas” é justamente que o multilateralismo tem de se sobrepor a tudo. “Por quê?”, pergunta ele. Decisões de organismos internacionais são boas quando são boas para o Brasil. Não são quando não convêm ao País. Simples assim. Quer dizer… mais ou menos simples, porque a ONU tem seus problemas, mas é fonte de estabilidade internacional, e a OMC, útil nas guerras comerciais, é fundamental para países médios como o Brasil. E vai por aí afora.
Quanto aos temas mais bombásticos da campanha, eles trariam enorme prejuízo ao Brasil e foram estacionando no caminho para o poder: embaixada em Jerusalém, retirada do Acordo do Clima, cacetadas na China. Parecem bem distantes.
Após reduzir a estrutura do Itamaraty – “escolher pessoas para cargos, não cargos para pessoas”, diz Araújo –, há sérias dificuldades para fechar postos no exterior criados pelo ex-chanceler Celso Amorim como forma de atrair votos para uma vaga no Conselho de Segurança da ONU. Criar é fácil, fechar é que são elas. É o oposto do “soft power”, é como dizer aos países: “Vocês não têm a menor importância”.
E a exoneração do embaixador Paulo Roberto de Almeida por críticas ao chanceler? Resposta: não é nenhuma novidade, que o digam os embaixadores Moscardo, Bustani e Samuel Pinheiro Guimarães no governo FHC. Turma é turma.

 

O GLOBO

Bernardo Mello

Fala sobre democracia sugere que Bolsonaro não entendeu a Constituição
O presidente Jair Bolsonaro disse ontem que “democracia e liberdade só existem quando a sua respectiva Força Armada assim o quer”.
A frase revela uma incompreensão do papel dos militares e da Constituição, que ele prometeu cumprir ao tomar posse.
A democracia não é um favor que os militares prestam aos civis. A palavra vem do grego demokratia, a união de demos (povo) e kratia (poder).
Se tiver dúvidas, o presidente pode consultar o artigo 1º da Constituição. Diz o parágrafo único: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”.
Isso significa que o poder só é legítimo se tiver como origem a vontade popular, expressa pelo voto.
Os integrantes das três Forças participam do processo quando vão às urnas. O voto de um fardado não vale mais nem menos do que o voto de um paisano.
A afirmação de que o poder emana do povo está em todas as Constituições brasileiras desde 1934. Não foi inventada aqui. Aparece, com poucas variações, nas Cartas de todos os países democráticos.
A Constituição da França faz questão de reforçá-la. Afirma que o princípio da República é ser o “governo do povo, pelo povo e para o povo”.
A Carta brasileira também é clara sobre as atribuições das Forças Armadas. O artigo 142 diz que elas “são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do presidente da República”.
E não o contrário.
Como já virou rotina, militares que ocupam altos postos no governo tentaram consertar a fala presidencial. O vice Hamilton Mourão afirmou que Bolsonaro foi “mal interpretado”. O ministro Augusto Heleno alegou que “tentaram distorcer” o que ele disse.
A explicação poderia colar se Bolsonaro tivesse um histórico de defesa da democracia e de repúdio a regimes autoritários, como a ditadura de 1964.
Os dois generais sabem que não é bem assim.

Lauro Jardim

Um ministro do TCU na alça de mira
A PGR está em vias de disparar um torpedo na direção de Augusto Nardes, o ministro da TCU que brilha na Operação Zelotes.

Esquálidos royalties do petróleo para a educação e saúde
Entre janeiro e fevereiro, foram distribuídos R$ 1,9 bilhão a título de royalties de petróleo, de acordo com a ANP.
Dessa bolada, os estados ficaram com 28,2% e os municípios com 34,4%. Beleza. Sabe quanto a educação e a saúde receberam? Esquálidos 1,8% do total.

As mudanças no Itamaraty
Jair Bolsonaro e Ernesto Araújo tem reunião marcada hoje no Palácio do Planalto. O chanceler vai discutir com o presidente a lista de remoções e transferências de embaixadores — uma relação grande que deve ser anunciada em breve.
Entre elas, a de três ex-chanceleres:
*Antonio Patriota deve ir para Haia.
*Mauro Vieira para Atenas.
*E Luiz Alberto Figueiredo deve chefiar a embaixada em Copenhague.

Eunício sobre Renan
Longe do campo, agora Eunício Oliveira dá seus palpites da arquibancada.
De lá, ele vem dizendo que Renan Calheiros errou feio na disputa pela presidência do Senado, não pela candidatura, como a maioria prega, mas por ter desistido antes do segundo turno.
Eunício aposta que Renan teria grandes chances de ter batido Davi Alcolumbre no confronto direto.

Bolsonaro solto é um perigo
Jair Bolsonaro posta ou declara algo e… é certo que mais adiante sua fala ou postagem terá que ser retificada, corrigida ou varrida para debaixo do tapete.
Seja em nota oficial do Palácio do Planalto ou em alguma declaração de alguém do governo vindo ao seu socorro, como aconteceu hoje com Hamilton Mourão.
O vice foi obrigado a dar uma volta enorme para tentar dizer que Bolsonaro não quis dizer o que disse hoje cedo a respeito de democracia e liberdade.
Custava, em casos como esse, que Bolsonaro se limitasse a ler um discurso? Ou que suas contas nas redes sociais sejam tocadas por um profissional do ramo — e não por ele mesmo ou por seu filho 02?
Deixá-lo solto no governo, sem algum tipo de monitoramento de seus auxiliares mais diretos, é um perigo para o próprio mandato, que dirá para as reformas que pretende passar no Congresso.

Damares na ONU
Damares Alves desembarca em Nova York no domingo para representar o Brasil no encontro anual da ONU sobre os status das mulheres no mundo.

Merval Pereira

A hora da Previdência
O presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, começou a negociar com o governo o andamento da reforma da Previdência dentro do Congresso. Ele disse a interlocutores, entre eles o ministro da Economia Paulo Guedes, que se o governo não assumir uma posição proativa nas negociações parlamentares, não será possível aprová-la.
A aparição do presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais ontem, defendendo a reforma da Previdência diante de seus seguidores, já é conseqüência dessa necessidade, enfatizada por Maia, de o governo explicitar seu empenho da aprovação da reforma.
Rodrigo Maia também está pensando em ampliar a responsabilidade pela aprovação da reforma para partidos que tecnicamente são de oposição ao governo, como o PDT, ou que, sendo da base governista, estejam insatisfeitos, como o PP.
Ontem o presidente da Câmara teve uma conversa com o deputado Mauro Benevides Filho, que seria o ministro da Fazenda de um eventual governo Ciro Gomes, para sondar a possibilidade de que ele venha a presidir a Comissão Especial da reforma.
Benevides Filho se licenciou do cargo de secretário de Planejamento do governo petista do Ceará para ficar na Câmara durante a tramitação da reforma da Previdência. Embora seja difícil uma negociação com o PDT, pois será preciso que o partido garanta não fechar questão contra a reforma, Rodrigo Maia considera que uma solução desse tipo daria à reforma da Previdência um caráter suprapartidário que ajudaria sua tramitação.
Rodrigo Maia, porém, pretende conversar também com os partidos que compõem a base governista, já que vários deputados estão se apresentando como voluntários para assumir a relatoria. A presidência da comissão é um cargo com peso político pelo simbolismo, mas a relatoria do projeto será fundamental.
A idéia de indicar alguém do PP, para contemplar o partido da base do governo, será negociada com os líderes dos partidos da base, mas, sobretudo com os do governo. A idéia de dá-la a Aguinaldo Ribeiro, ex-ministro de Dilma Rousseff e ex-líder de Michel Temer, pode esbarrar na possível indicação dele para líder do Governo Bolsonaro na Câmara.
De qualquer maneira, Maia pretende dividir a responsabilidade da escolha com o governo, e vai conversar também com o ministro da Economia Paulo Guedes. A reforma previdenciária dos militares, um entrave a que o processo na Câmara deslanche, parece estar nos seus momentos finais.
Sinal disso é que ontem, ao participar da cerimônia de celebração dos 211 anos do Corpo de Fuzileiros Navais, no Rio de Janeiro, o presidente Bolsonaro enfatizou a necessidade de todos darem sua contribuição de sacrifício.
As principais mudanças já estão definidas: o tempo de serviço aumentará de 30 para 35 anos, a contribuição previdenciária de 7,5% para 10,5%, sendo cobrada também dos pensionistas.
Como conseqüência da necessidade de acentuar o empenho do governo na aprovação da reforma, o presidente Jair Bolsonaro iniciou ontem uma campanha no Twitter em que diz que “a partir dela” “o país terá condições de estabilizar as contas, potencializar investimentos, viabilizar uma rígida reforma tributária e enxugar ainda mais a máquina pública, reduzindo nossas estatais”.
Bolsonaro também aproveitou o Facebook para enfatizar que a reforma foi feita com base em padrões mundiais, e enumerou as vantagens: combate privilégios, como aposentadoria especial para políticos, cobra menos dos mais pobres, e atinge a todos, “inclusive militares”.
A repercussão em grande parte negativa da sua postagem “pornomomesca” fez com que começasse uma emissão no Facebook, que deve se repetir todas as semanas, para responder aos internautas e falar sobre o que considera os principais problemas de sua administração.
Ontem ele falou, entre outras coisas, sobre uma cartilha sobre saúde publicada no governo Dilma, que, na sua opinião, tem ilustrações dispensáveis ao falar do uso da camisinha, e também prometeu que as lombadas eletrônicas nas estradas serão desativadas à medida que as concessões expirem. E ainda teve que explicar uma declaração em que afirma que a democracia depende das Forças Armadas.

Miriam Leitão

A mulher alvo da violência
Marielle foi vítima de um feminicídio político. Assim define sua ex-assessora, amiga, e hoje deputada estadual pelo Rio Renata Souza. Um ano depois, a polícia não trouxe a resposta esperada, e a Mangueira deu a resposta pública. Neste Dia Internacional da Mulher, é hora de falar delas, tantas, mortas ou agredidas. Samira Bueno, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diz que por hora 536 mulheres foram vítimas de violência entre fevereiro do ano passado e fevereiro deste ano. Ao todo, 4,7 milhões de mulheres.
— A gente está falando de socos, batidas, tapas, chutes. E tem uma informação da pesquisa — feita pelo Fórum com o Datafolha — que mostra que quanto maior a escolaridade mais ela demonstra ter sido vítima de agressão. Não dá para acreditar que a mulher do ensino fundamental sofra menos violência do que a mulher escolarizada. Essa diferença tem a ver com o reconhecimento de que isso é um crime. As novas gerações, mulheres mais jovens e escolarizadas, estão mais empoderadas e denunciam — diz Samira Bueno.
Renata Souza preside a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Essa Comissão tem a característica, desde que era presidida por Marcelo Freixo, e coordenada pela própria Marielle, de dar também atendimento ao público. A deputada Renata vai manter essa prerrogativa.
— Vamos dar atendimento às mulheres, encaminhá-las à Defensoria Pública. Além disso, vamos instalar nas próximas semanas uma CPI da violência obstétrica. Tem havido muitas mortes de nascituros. Vamos investigar. Sou também da CPI do Feminicídio, presidida pela deputada Marta Rocha. Vamos trabalhar para superar esse nível de feminicídio que está acontecendo em nosso país — promete a deputada.
Há muito trabalho quando o assunto é proteger a mulher de abusos, seja no espaço público, seja no espaço familiar. Os casos de assassinatos, ou tentativas, são diários. Só nos últimos dias, e para citar dois crimes: Maria Edjane de Lima, de 27 anos, deu entrada num hospital de Barra Mansa, sul fluminense, com sangramento e 27 semanas de gravidez. Disse que foi espancada pelo marido, com inclusive chutes na barriga. A filha nasceu e ela morreu em seguida. O marido prestou depoimento e foi solto. Em Fortaleza, na terça-feira, um subtenente da Polícia Militar deu um tiro na cabeça da esposa, que está em estado grave, prestou depoimento à Delegacia da Mulher e foi solto. Só no dia seguinte acabou sendo preso. Os crimes acontecem diariamente e a impunidade é frequente. Em 76% dos casos o agressor é conhecido da vítima.
Os casos de assédio também são frequentes e em número assustador. Pela pesquisa do Fórum, neste um ano, 37% das mulheres dizem ter sofrido assédio. Isso dá 22 milhões de mulheres. Samira acha que é preciso também olhar para essas violências que são invisíveis, que não chegam até o Estado. Renata chama de “microviolências”. Elas vão deixando sequelas e são reveladoras.
— Na sociedade patriarcal a lógica é que a mulher tem que ser submissa e que tem que ser entendida como propriedade do homem — disse Renata.
Há saída para este túnel escuro em que estamos. O primeiro passo é ter pessoas como Samira e Renata. Eu entrevistei as duas no meu programa na Globonews. Elas são exemplos de nova mulher, aquela que está disposta a denunciar, como também a se dedicar ao trabalho de mudar a sociedade. Para isso, diz a deputada Renata Souza, a educação é a principal arma:
— É fundamental que as escolas façam o debate de gênero. A gente precisa que a educação faça com que esse futuro jovem e homem não agrida a sua mulher. A escola é a grande aliada desse debate.
Há muito a fazer. E muito já foi feito. O feminismo carrega a marca da transformação e ele se renova nesta nova geração. Sempre foi polêmico, o feminismo. Há décadas é criticado, como se fosse ele o problema e não o caminho da solução. Neste Dia da Mulher há pouco a comemorar, principalmente quando se pensa que no dia 14 o assassinato de Marielle completará um ano. O legado deixado pela vereadora, segundo Renata, é que haja uma “resposta concreta contra as desigualdades sociais, as desigualdades raciais e as de gênero”. Ou, como diria a Mangueira, que se fale mais sobre “a história que a história não conta, o avesso do mesmo lugar”.

Relação diplomática com os EUA tem que ser próxima e sem adesismos
O presidente Jair Bolsonaro vai aos EUA em meados deste mês. Lá, se encontrará com o presidente Donald Trump. O país é um grande parceiro comercial do Brasil. A relação com os americanos tem que ser sempre próxima, mas ao mesmo tempo cuidadosa. Especialmente neste momento, em que a diplomacia brasileira está sem rumo.
É positivo ir aos EUA, ter uma boa relação com o governo americano. Mas também é preciso ter cuidados neste relacionamento, sem adesismos. Os primeiros sinais do governo Bolsonaro na política externa apontaram para um alinhamento automático aos EUA, o que só aconteceu bem no início do governo militar, em 1965. Essa política foi atualizada, principalmente no governo Geisel, quando houve um rompimento do acordo militar.
Os interesses brasileiros são diferentes dos interesses americanos. Os EUA querem, por exemplo, desmoralizar os órgãos multilaterais, como a OMC. Isso é muito ruim para o Brasil, um país médio que aposta na Organização para resolver disputas comerciais. Em alguns mercados, os dois são até concorrentes. Já houve disputas em debates sobre o algodão. Nos fóruns mundiais, portanto, o país não pode ser caudatário, apenas seguindo as posições americanas.
Desde o começo, o governo de Jair Bolsonaro já errou muito. Teve idas e vindas na questão da embaixada em Israel e no acordo do clima. A viagem é preocupante, mas também é uma oportunidade. Tomara que o presidente saiba aproveitar.

 

BLOG DO CAMAROTTI
Gerson Camarotti

Situação do ministro do Turismo gera desconforto e aumenta pressão para ele pedir demissão ou afastamento
Integrantes do governo e até mesmo parlamentares da bancada do PSL já não escondem mais o desconforto com a situação do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, com várias acusações de uso de candidatas laranjas nas últimas eleições para usar o repasse obrigatório de 30% para as mulheres do fundo eleitoral. Cresce a avaliação de que ele deve pedir para deixar o ministério para evitar um desgaste maior do governo.
A situação do ministro do Turismo ficou extremamente delicada depois da demissão do agora ex-ministro Gustavo Bebianno, também citado neste caso de candidaturas laranjas pelo PSL. Álvaro Antônio foi indicado para o cargo pela bancada do partido.
Apesar da situação de grande desconforto, alguns interlocutores do presidente Jair Bolsonaro avaliam se não seria melhor aguardar a conclusão da investigação iniciada pela Polícia Federal para tomar uma decisão definitiva. Por isso, já existe pressão para que Álvaro Antônio pelo menos peça um afastamento até a conclusão desse inquérito.

Preocupado, governo tenta evitar ‘esvaziamento’ das falas de Bolsonaro após improvisos
Há uma preocupação cada vez maior, entre integrantes do governo e aliados, com as declarações, mensagens nas redes sociais e discursos ou entrevistas de improviso feitos pelo presidente Jair Bolsonaro.
Há o consenso de que isso enfraquece, cada vez mais, a fala presidencial, pois muitas vezes o próprio Bolsonaro precisa ser reinterpretado por auxiliares ou até mesmo pelo vice-presidente Hamilton Mourão para minimizar declarações polêmicas.
“É preciso evitar o esvaziamento da fala presidencial. Quando o chefe do Executivo fala, tem que ter a mensagem principal do governo. Não deve ter a necessidade de explicações ou correções”, disse ao blog um auxiliar próximo do presidente.
Foi o que aconteceu nesta quinta-feira, quando o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que o presidente Jair Bolsonaro foi “mal interpretado” ao declarar que democracia e liberdade só existem quando as Forças Armadas querem.
A avaliação interna é que, além do esvaziamento da fala presidencial, esse tipo de polêmica acaba desviando o foco do principal objetivo do governo neste momento: a aprovação da reforma da Previdência.
Com dificuldade em consolidar a própria base aliada no Congresso Nacional, integrantes do governo reconhecem que é preciso evitar polêmicas e falas que possam dividir ainda mais possíveis aliados no Legislativo.
Nesta quinta, a transmissão ao vivo do presidente em uma rede social estava toda projetada para defender a reforma da Previdência.
Depois da polêmica em torno do discurso de improviso, o consenso foi o de que o tema principal foi ofuscado pela fala anterior.

 

BLOG DO JOÃO BORGES

O cálculo político do ministro Paulo Guedes
Nas várias conversas que já manteve com lideranças políticas, incluindo os presidentes da Câmara e do Senado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tem colocado na mesa um argumento político em favor de uma tramitação mais rápida da reforma da Previdência.
Se mudanças no sistema previdenciário são necessariamente desgastantes – uma agenda negativa do ponto de vista da opinião pública –, a melhor estratégia é evitar que a discussão se arraste indefinidamente.
“A aprovação da reforma da Previdência vai abrir a temporada de boas notícias, entrar na agenda positiva”, tem dito o ministro nas diversas conversas que tem mantido com lideranças políticas.
Redução e simplificação de impostos, abertura da economia, redefinição do pacto federativo que permitiria alívio à situação financeira dos estados e lançamento da carteira de trabalho verde-amarela são alguns pontos mencionados pelo ministro que compõem o que ele define como agenda positiva.
Mas a extensão dessa agenda depende da profundidade da reforma da Previdência. Caso se preserve o impacto financeiro de R$1 trilhão em dez anos, como pretende o ministro da Economia, haverá espaço para simplificação tributária com redução de impostos.
Se a reforma for desidratada, até mesmo lançamento da carteira de trabalho verde-amarela, que reduziria os encargos sobre a folha, estimulando a contratação de jovens, estaria em risco.
O cálculo político do ministro poderia ser resumido assim: se a reforma da Previdência necessariamente gera desgaste, mas dela depende a retomada da economia e recuperação do emprego, o melhor a se fazer é aprová-la o quanto antes.

 

VALOR ECONÔMICO

Editorial

Governo precisa criar novos laços com o Congresso
O presidente Jair Bolsonaro perde tempo e capital político com extravagâncias, mas seu governo será testado de fato pelo desempenho no Congresso, a começar pela votação da principal reforma de sua fase inaugural, a da previdência. Como o trunfo eleitoral está ficando distante no tempo, e será apagado dos cálculos políticos se o governo continuar demonstrando mistura tóxica de extremismo ideológico e falta de interlocução, será determinante construir pontes com o Congresso. Até agora, não parece ainda haver nenhuma, apesar das mesuras de praxe ao Legislativo.
O caminho natural de acerto político começa pela formação do ministério. É da democracia que partidos políticos aliados detenham uma parcela do poder, mas acertos escusos demonizaram a
prática e os políticos. Bolsonaro (PSL-RJ) colocou o fim dessas barganhas como centro de sua campanha eleitoral, tornando seu quase inexistente partido na maior força do Congresso, ao lado do PT (ambos com 54 deputados). O presidente cumpriu a promessa, e isso tem um custo.
Bolsonaro compôs o ministério com alguns integrantes de bancadas temáticas (caso da Agricultura e da pasta de Mulher, Família e Direitos Humanos), um número razoável de nomeações “técnicas” para a infraestrutura desmembrada, entre as quais vários militares da reserva e, por fim, franco atiradores ideológicos sem partido (caso da Educação e Relações Exteriores). O peso político desse time no Congresso é pequeno. O partido mais presente nessa composição, o DEM, com três ministros, inclusive o da coordenação política, não é aliado incondicional do governo nem indicou os nomeados. Apenas Fernando Collor, desde a redemocratização, governou sem fatiar muito seu ministério com partidos e seu PRN era inexpressivo como o PSL antes das urnas. Collor não terminou o mandato, mas não por ter feito um “governo técnico”.
Em geral, todos os partidos perderam poder com a ascensão de Bolsonaro, em termos de influência sobre destinação de recursos, controle de grandes orçamentos e influência sobre regulações. O vencedor, o novato PSL, ainda é um ajuntamento sem identidade própria, fora o antipetismo.
Houve de fato um rompimento com os modos e costumes da política na redemocratização, resta saber se ele sobreviverá. Algumas legendas perderam mais que outras. Um trabalho do Ipea, de Noëlle da Silva e Sheila Barbosa (textos para discussão 2453) ajuda a fazer a contabilidade de perdas e danos. O MDB é o caso mais óbvio. Participou de todos os governos e controlou ao longo do tempo os ministérios da Infraestrutura, exercendo sua maior influência no segundo governo Lula, quando ocupou seis ministérios.
À medida que crescia o número de partidos e as tarefas de Estado, cresciam as coalizões e a quantidade de legendas nos ministérios. A partir de Lula, a área social foi multiplicada com pastas com status ministerial, mas o poder aí ficou todo concentrado no PT. Até Lula, o PFL, hoje DEM, se aventurou pela área social (Meio Ambiente) e Infraestrutura. No atual governo tem a Saúde e a Agricultura.
Na coalizão ônibus que a ex-presidente Dilma Rousseff montou, encontram-se outros que deixaram de deter nacos do poder como o PR, (que dominou Transportes), PP (Cidades) e PSB (Integração Nacional). O PSDB, que tradicionalmente ocupou cargos em setores do governo da área econômica e da coordenação política, ficou a ver navios. O PSD de Kassab participou dos dois governos anteriores e também não tem cargos.
Se a conta que o governo faz de seu apoio leva em conta simpatias e afinidades com a plataforma econômica do governo, ela pode chegar aos 308 votos necessários para aprovar a reforma da
previdência, mas a tarefa não será fácil. Basta contar os partidos fisiológicos – há 139 parlamentares que, em tese, não sabem ou não querem fazer política de outro jeito e que não se comovem com a plataforma liberal. São: PP, 37 deputados, terceira maior bancada, MDB, com 34, quarta maior, PSD, com 35, a quinta e PR, com 33, a sexta. Se a eles se somarem os 140 deputados de oposição nota-se que, dependendo do manejo dos partidos fisiológicos, o apoio parlamentar à reforma pode não ser suficiente.
É possível testar os limites da tradição e tentar um novo relacionamento. Rodrigo Maia, presidente da Câmara, disse que Bolsonaro complica as coisas ao menosprezar os políticos. Depende do Planalto convencê-los a apoiar o governo, ao mostrar que tem rumo certo, programa claro e que se dispõe a realizar composições honestas. Não se vê isso até agora.

 

CORREIO BRAZILIENSE

Brasília-DF
Denise Rothenburg

A nova “conversa ao pé do rádio”
A decisão do presidente Jair Bolsonaro de falar todas as semanas com os seguidores via Facebook foi tomada a fim de não deixar seus eleitores dispersos. Pesquisas internas de alguns partidos chegaram a indicar que ele vinha estreitando sua faixa de influência, ficando apenas com a direita mais radical. Bolsonaro obteve muitos votos daqueles que, embora não estivessem na primeira fila do bolsonarismo, eram anti-PT. Foi esse público que lhe garantiu a vitória e que começava a se afastar. E é com esse que o presidente deseja dialogar, quando se refere ao aumento de validade da carteira de motorista, qualidade dos serviços dos sindicatos e por aí vai.
Outros presidentes, nos tempos em que a tecnologia ainda não permitia uma conversa tão direta como o eleitorado, optaram pelo rádio para expor os projetos do governo. Sarney, Itamar Franco, Fernando Henrique e Lula tinham o chamado conversa ao pé do rádio. Nos tempos de Lula, perguntas sobre os projetos eram enviadas ao Planalto e reproduzidas no ar para que o presidente respondesse. Bolsonaro agora faz isso via Face. Quer que os eleitores tenham ali a interpretação das falas feitas por ele mesmo, sem passar pelo filtro de terceiros. O alcance é para ninguém botar defeito. 37.730 compartilhamentos na primeira hora, 709 mil visualizações.

Aonde o PSL quer chegar
A proposta da deputada Bia Kicis, (foto) do PSL-DF, sobre a redução da idade de aposentadoria dos ministros do Supremo Tribunal Federal para 70 anos começa ser bem-vista pelo entorno do presidente Jair Bolsonaro. É que a interlocução do governo com o STF ainda é tênue. Se não conseguir aprumar, o jeito será tentar emplacar a proposta de Bia no Parlamento.

Muita calma nessa hora
Só tem um probleminha: Com a reforma da Previdência na Câmara e a tributária no forno, não dá para ficar fazendo marola no STF. Afinal, é lá que as reclamações sobre a reforma vão desaguar depois da votação.

Captou a mensagem I
A defesa que Jair Bolsonaro fez da reforma da Previdência em suas redes sociais foi muito bem recebida pelo DEM do presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Ele tem sido cobrado quase que diariamente por líderes partidários na seguinte linha: “O presidente tem que entrar de cabeça na reforma previdenciária. Não dá para ficarmos aqui, com o desgaste, e ele posando em outras temas”.

Captou a mensagem II
A avaliação é a de que alguma reforma previdenciária será aprovada. A ordem agora é reduzir as mudanças no texto.

Bola pra frente
Com a live no Facebook , ontem, o presidente Jair Bolsonaro espera ter colocado um ponto final nas polêmicas que promoveu no carnaval e, de quebra, na frase sobre “democracia e liberdade só existem quando as Forças Armadas assim o querem”.

Na muda
Nunca antes na história deste país os profissionais da política ficaram tão quietos. Alguns pretendem permanecer assim ao longo do primeiro ano de governo. Depois é que será possível fazer um diagnóstico. Até aqui, a bola está com Jair Bolsonaro, apesar de todos os tropeços desses primeiros 60 dias.

Tá bem assim
Deputados dos mais diversos partidos já tratam Felipe Francischini (PSL-PR), de 27 anos, como futuro presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. É bom ele se preparar, porque a turma da oposição que conhece o funcionamento da comissão promete que não vai
ter moleza.

Dia Internacional da Mulher
A coluna parabeniza todas as mulheres que diariamente e nas mais diversas áreas buscam transformar o mundo num lugar melhor. Vamos
em frente.

Nas entrelinhas
Luiz Carlos Azedo

A última do Bolsonaro
O presidente Jair Bolsonaro foi eleito no segundo turno por 55,13% dos votos válidos; no primeiro turno, teve 46,03% dos votos. Em tese, embora seja presidente de todos os brasileiros, está fazendo a opção de governar apenas para os que votaram nele. Os que optaram por outros candidatos no primeiro turno e votaram nele, no segundo turno, não desejavam a volta do PT ao poder. O petista Fernando Hadadd obteve 44,97% dos votos no segundo turno, ao qual chegou graças aos 29,28% dos votos válidos obtidos no primeiro turno. O PT obteve 15% dos votos a mais no segundo turno, pela razão inversa.
Um candidato de centro, após a eleição, estaria mais empenhado em construir um certo consenso nacional para governar, isolando os extremos. Não é o caso de Bolsonaro. Sua estratégia é manter a fricção direita versus esquerda a qualquer custo e ancorar seu governo nas Forças Armadas, seja recorrendo a oficiais de alta patente para compor o governo e ocupar suas posições mais estratégicas, seja resgatando o velho positivismo que embalou as revoltas tenentistas, a Revolução de 1930 e o golpe militar de 1964. Bolsonaro revela uma estratégia de governo na qual o povo não é o protagonista, mas seus companheiros d’armas.
Ao discursar na cerimônia de aniversário do Corpo de Fuzileiros Navais no Rio de Janeiro, num discurso curto e grosso, deu seu recado: “Temos uma missão de mudar o Brasil. Esse foi nosso propósito, essa foi nossa bandeira ao longo de quatro anos andando por todo o Brasil. […] O que eu quero para os senhores, meus irmãos militares. Sou do Exército brasileiro, mas tenho uma formação muito semelhante a de vocês. A minha última unidade foi a Brigada de Infantaria Paraquedista. Eu quero vocês conversando, ouvindo, debatendo uma retaguarda jurídica para que vocês possam exercer seus trabalhos, em especial nas missões extraordinárias da tropa.”
Depois, arrematou: “A segunda missão será cumprida ao lado das pessoas de bem do nosso Brasil, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família, daqueles que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa, daqueles que amam a democracia e a liberdade. E isso, democracia e liberdade, só existe quando a sua respectiva Forças Armadas assim o quer”, disse o presidente, arranhando a concordância verbal. Depois do discurso, o vice-presidente Hamilton Mourão e o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, tentaram reinterpretar o discurso, mas o leite já estava derramado. Bolsonaro se viu obrigado a gravar uma “live” na internet, na qual minimizou o comentário feito na cerimônia militar.

Previdência
Bolsonaro utilizou o argumento para justificar a inclusão dos militares na reforma da Previdência, uma exigência que está sendo feita pelo Congresso para começar a debatê-la, porque a proposta do governo deixou os militares de fora. Chegamos ao ponto que mais interessa. Gregos e baianos, com exceção dos de oposição, sabem muito bem que o país não tem a menor possibilidade de crescer na escala que precisa sem a reforma da Previdência. A desaceleração da economia mundial e a nossa crise fiscal não permitem que isso ocorra, mesmo que a reforma seja meia-boca, descarregando o peso do ajuste nos assalariados para manter os privilégios dos grupos de pressão mais poderosos, como magistrados, procuradores, militares e policiais. O sucesso de Bolsonaro passa por esse rubicão.
Para aprovar a reforma, Bolsonaro depende dos políticos, principalmente do Congresso, cujos 513 deputados e 81 senadores representam a totalidade dos eleitores e não apenas a parcela que votou no presidente da República. Não há a menor possibilidade de aprovar a reforma sem a mobilização de 308 deputados e 54 senadores. A forma como o governo foi organizado não garante esse apoio, ainda mais porque os políticos nomeados para o ministério são representantes de frentes parlamentares com fortes interesses corporativos, que nada têm a ver com a reforma da Previdência.
Não se pode dizer que Bolsonaro não saiba como funciona o parlamento, no qual atuou por quase 30 anos. Na prática, porém, o eixo de sua atuação não vem sendo a articulação política do governo no Congresso: mira a mobilização ideológica de seus apoiadores, entre os quais os militares, dos quais é o “comandante supremo”, como presidente da República. Ninguém se engane com o significado da eleição de Bolsonaro. Temos um governo assumidamente de direita, com uma agenda liberal na economia e conservadora nos costumes. A oposição terá de aprender a conviver com isso. Entretanto, Bolsonaro também não pode ignorar que vivemos num regime democrático, com um Congresso que preza suas prerrogativas constitucionais.

 

DIÁRIO DO PODER
Cláudio Humberto

GILMAR: MPF FEZ ‘GAMBIARRA’ PARA TER PAULO PRETO
O ministro Gilmar Mendes acusa procuradores de tentarem impedi-lo de julgar questões relativas ao tucano Aloysio Nunes e a Paulo Vieira de Souza (“Paulo Preto”) porque está sob seu exame uma reclamação acusando-os de recorrerem a uma “gambiarra” para transferir esse caso à Lava Jato em Curitiba. “Eles não conseguirão me intimidar”, diz ele, contra a alegação de suspeição. Gilmar é o relator, no Supremo Tribunal Federal (STF), das investigações sobre o ex-diretor da Dersa.

ALVO CENTRAL
Para o MPF, Paulo Preto operou complexo esquema de lavagem de dinheiro de corrupção da Odebrecht, que é alvo central da Lava Jato.

LAVANDERIA PP
Paulo Preto teria lavado dinheiro sujo com o Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, empreiteira preferida do PT e do PSDB.

CENTRALIZAÇÃO
O MPF quer Paulo Preto em Curitiba também por suas ligações a delatados pela Odebrecht, como o ex-ministro Aloysio Nunes.

PRECEDENTE
Há casos como o do tríplex do Guarujá, que levou o ex-presidente Lula à cadeia: originalmente foi transferido de São Paulo para Curitiba.

ACREDITE: TEVE DEPUTADO TRABALHANDO 4ª FEIRA DE CINZAS
Rompendo uma antiga tradição de “enforcar” a semana de Carnaval, a Câmara registrou um dado próximo do “milagre”: em plena quarta-feira de Cinzas, 8 deputados compareceram ao trabalho. Os demais 505 somente retomarão suas atividades na próxima semana, quando, de fato, terá início o ano legislativo. Assinaram o ponto, na quarta-feira representantes do DEM, PROS, PSL, Pode, PRB, Novo e PT.

LISTA PEQUENA
Foram ao trabalho o líder do Novo, Marcel Van Hattem (RS), Gleisi Hoffmann (PT-PR) e José Medeiros (Pode-MT)

TRABALHO NA QUARTA
Também registraram ponto Carlos Gaguim (DEM-TO), Weliton Prado (PROS-MG), Chris Tonietto (PSL-RJ) e Arlindo Chinaglia (PT-SP).

SÓ UM LOCAL
Dos oito deputados do DF, residentes em Brasília, apenas Júlio Ribeiro (PRB-DF) apareceu para trabalhar na quarta-feira de cinzas.

PARA QUE SEGREDO?
Para demonstrar compromisso com a transparência, o presidente Jair Bolsonaro deveria revogar ato do ex-presidente Lula que tornou secretos o detalhamento dos gastos com cartões corporativos.

BLOCO DA PREVIDÊNCIA
Líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP) afirmou que a base do governo não ficou parada e se reuniu no Carnaval para definir relatores da reforma da Previdência. “Boas novas virão”, disse.

APOSTA NO EMPREGO
O líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), aposta na reforma da Previdência para a economia reagir e o Brasil gerar 2 milhões de novos empregos por ano e não os atuais 500 mil.

SOZINHO SERIA MELHOR
É positiva a ideia do presidente Bolsonaro de falar ao vivo no Facebook, uma vez por semana, às 18h30 de quinta-feira. Mas deveria considerar a opção de fazer isso sozinho, olho no olho com o cidadão.

VOZES DO ATRASO
Ponto muito celebrado da reforma trabalhista, a divisão de férias em três períodos não agrada Rubens Otoni (PT-GO). O deputado apresentou projeto para proibir o parcelamento das férias.

TRABALHO VIROU SECUNDÁRIO
Especialista em Direito do Trabalho, Cassio Faeddo critica o PT, cuja a bancada no Congresso “não tem alma nem qualidade” e os petistas estão “mais preocupados com a pauta gay do que com trabalho”.

FACA NO PESCOÇO
Em um buraco financeiro que levou à recuperação judicial, a Avianca recebeu ultimato dos tripulantes: ou paga salários e diárias de fevereiro até quarta-feira (13), ou enfrenta greve e fica com os aviões no chão.

PLANOS BEM, SAÚDE MAL
A Agência Nacional de Saúde comemorou os 48 mil novos planos de saúde apenas no DF, em 2018; o segundo maior crescimento do País. O sucesso dos planos de saúde decorre do fracasso da saúde pública.

PERGUNTA NO MICTÓRIO
Tem perigo de dar certo um País em que adeptos do “golden shower” combinam nas redes sociais um “mijaço” nacional simultâneo?

 

VEJA

Radar
Maurício Lima

Fundação Lava Jato tem receita superior a quase todos municípios do país
Montante é de 2,5 bilhões; apenas 13 cidades superam esse valor em receita corrente, que é tudo arrecadado pela cidade, excluindo transferências
Essa bolada de 2,5 bilhões da Fundação Lava Jato é superior a receita corrente de quase todos os 5.561 municípios do país. Apenas 13 cidades superam esse montante: São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Salvador, Recife, Campinas, São Bernardo, Goiânia, Manaus, Guarulhos,
Receita corrente é tudo que os municípios arrecadam menos as transferências da União e dos estados. É a receita própria arrecadada.
Esses dados vão constar de um documento a ser divulgado pelo grupo Auditores Fiscais pela Democracia.

Olavo de Carvalho quer interferir na troca de reitores de universidades
O poderoso chefão
O plano de Olavo de Carvalho para a educação brasileira vai muito além da nomeação de um apadrinhado no comando do ministério. Seu sonho dourado é interferir na troca de todos os reitores das universidades públicas.

Flávio Bolsonaro dizia que Queiroz era agiota
Fatos e versões
Antes de Fabricio Queiroz contar ao MP que usava recursos para ampliar a base eleitoral de Flavio Bolsonaro, o senador tinha uma outra versão para o 1,2 milhão de reais na conta do assessor. Aos mais próximos, explicava que Queiroz era agiota.

Centenário de Jango é ignorado pela esquerda; e pela direita
Família prepara atos e chama atual governo de “fascista”
O ex-presidente João Goulart, deposto pelos militares, completaria 100 anos em 1º de março. Em pleno Carnaval. Mas o aniversário passou batido. Pela esquerda, que não a celebrou, e, por que não, pela direita que hoje está no poder e que associa Jango ao pior do comunismo. Não fez referências.
A família prepara alguns atos no Congresso e em assembleias estaduais para lembrar a data. João Vicente Goulart, filho de Jango, diz que não seria esse governo a lembrar desse centenário.
“A ditadura implantada em 64 tentou menosprezar, esconder e desconstruir a história de Jango. Nos cem anos podemos dizer, com tranquilidade, que esta etapa do Brasil que vivemos é transitória e até certo ponto necessária, pois este período fascista é o que nos dará força e argumentos para uma mudança mais radical” – disse o filho.

Novo presidente promete expandir EBC, que Bolsonaro prometeu acabar
Contradição
Em e-mail enviado aos funcionários, o novo presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Alexandre Graziani, prometeu “contribuir para o fortalecimento, a modernização e o aperfeiçoamento” da rede estatal.
É uma tremenda contradição ao que seu chefe, o presidente Jair Bolsonaro, disse que faria com o que chama de “TV do Lula”.
Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro prometeu acabar com a EBC, responsável pela NBR e a TV Brasil.
O presidente dizia que, além de custosa, a EBC difundia os ideias do PT.

Blog do Noblat
Ricardo Noblat

O troco de Moro
Gosto de sangue na boca
Subiu no telhado o emprego do deputado federal Marcelo Álvaro Antônio (PSL-MG) como ministro do Turismo do governo do capitão. Seu colega da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, já reúne informações suficientes para pô-lo a correr por ter montado e se beneficiado de uma rede de candidaturas falsas no seu Estado.
Moro está com gosto de sangue na boca. Nada de pessoal contra Marcelo Álvaro. Mas Moro ainda não digeriu a ordem do presidente Jair Bolsonaro para que desconvidasse a cientista política Ilona Szabó da suplência de uma das vagas do conselho que trata de políticas de segurança e de combate ao crime organizado.
Marcelo Álvaro é ministro por escolha de Bolsonaro e de mais ninguém. Ele estava em Juiz de Fora quando o então candidato a presidente foi esfaqueado. Ajudou a carregar seu corpo até ao hospital. E só saiu de lá depois da primeira cirurgia. Bolsonaro o tem como um amigo leal e decente.

Abra o bico, Paulo Preto!
Cabeças coroadas rolarão
Conselho aos moços que já condenaram duas vezes à prisão o engenheiro Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da estatal paulista Dersa, conhecido como Paulo Preto, e que cuidam dele: providenciem para que nada ameace sua segurança. Porque ele sabe o suficiente para destruir reputações do alto clero da política e do mercado financeiro paulistas, e está pronto para abrir o bico.
Fora a vida, nada tem mais a perder depois que pegou 27 anos e oito meses de prisão, e, em seguida, mais 145 anos e oito meses, acusado de corrupção e de lavagem de dinheiro. Se antes sua família implorava para que delatasse, agora exige que o faça desde que uma de suas filhas também foi condenada. Paulo Preto está preso em Curitiba, e desta vez nem o ministro Gilmar Mendes poderá salvá-lo.

O capitão que nada aprendeu
Em cena, os tradutores de Bolsonaro
Jair Messias Bolsonaro é a prova viva de quanto seria necessária uma reforma educacional aplicada às escolas militares. O capitão de hoje pode ser o presidente da República de amanhã. E ele não pode ser devolvido à vida civil sem conhecer, e bem, a história do seu país, os fundamentos do regime democrático e o papel das Forças Armadas, entre tantas outras coisas.
De preferência, deveria também sair da escola tendo aprendido a falar o idioma nacional com correção. É o instrumento básico de trabalho para qualquer um, militar ou civil, que queira conviver em sociedade. Lula, por exemplo, que nunca quis estudar, chegou à presidência da República falando um português cheio de defeitos. Ao invés de “menos” dizia “menas”. Melhorou depois.
Aprendeu no exercício do cargo quando deveria tê-lo feito antes. Sofreu vexames, foi vitima de ataques por isso, e rebateu-os muitas vezes louvando a própria ignorância. No discurso de posse no Congresso em janeiro de 2003, citou com orgulho que o diploma de presidente da República era o primeiro que ganhava. Mentiu, é claro. Havia ganhado um ao concluir o curso para torneiro mecânico.
Bolsonaro foi aluno da Escola Preparatória de Cadetes do Exército e da Academia Militar das Agulhas Negras, onde se formou em 1977. Dez anos depois, cursou a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais. É de se supor que tivesse aprendido alguma coisa, talvez o bastante para se expressar pelo menos de forma inteligível, o que o pouparia de ser mal interpretado. Mas não foi isso o que aconteceu.
E disso deu prova mais uma vez ao falar rapidamente e de improviso na cerimônia pelo 211º aniversário do Corpo de Fuzileiros Navais, na Fortaleza de São José da Ilha de Cobras, no centro do Rio de Janeiro. Lá pelas tantas, em meio a um raciocínio rasteiro, enxertou uma frase entre vírgulas que o levaria a pagar caro nas redes sociais que já foram a praia onde reinava sem contestação.
Disse o torturador da língua depois de mencionar sua vitória nas eleições passadas:
– A missão será cumprida ao lado das pessoas de bem do nosso Brasil, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família, daqueles que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa, daqueles que amam a democracia. E isso, democracia e liberdade, só existe quando a sua respectiva Força Armada assim o quer”.
Dito de outra maneira e indo direto ao ponto: democracia e liberdade em um país só existem quando as Forças Armadas querem ou permitem. Que tal? E o distinto povo nada tem a ver com isso? Democracia e liberdade não são escolhas do povo que as deseja, restando às leis regulá-las, e às Forças Armadas e demais instituições do Estado garanti-las? Na cartilha do capitão é o contrário.
A frase de Bolsonaro chocou tanto ou mais os políticos em geral e seus ex-companheiros de farda e da reserva em particular do que o seu ato da véspera de compartilhar no Twitter um vídeo pornográfico onde um homem metia o dedo no próprio ânus, e em seguida outro homem urinava em sua cabeça. O vídeo veio acompanhado do comentário depreciativo feito por Bolsonaro a propósito de blocos carnavalescos.
Às pressas, o núcleo militar do governo montou uma operação de socorro ao capitão de ideias estranhas e de linguagem tosca. A frase de 15 palavras de Bolsonaro foi traduzida assim pelo vice-presidente Hamilton Mourão:
– O que que o presidente quis dizer? Tá sendo mal interpretado. O presidente falou que onde as Forças Armadas não estão comprometidas com democracia e liberdade, esses valores morrem. É o que acontece na Venezuela.
Em uma sessão ao vivo no Facebook, o capitão admitiu que mais uma vez causara polêmica, mas em vez dele mesmo explicar o que quis de dizer, apelou para o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete Segurança Institucional. Resumo do que disse Heleno:
– Isso aí não tem nada de polêmico, ao contrário. As suas palavras foram ditas de improviso para uma tropa qualificada e foram colocadas exatamente para aqueles que amam a sua pátria, aqueles que vivem diariamente o problema da manutenção da democracia e da liberdade. (…) No caso do Brasil, é claro que as Forças Armadas são o pilar da democracia e da liberdade.
O terceiro tradutor de Bolsonaro foi seu porta-voz, o general Rêgo Barros, que citou o cientista político americano Samuel Huntington, estudioso da relação entre os militares e o poder civil. Segundo o general, Huntington advoga que as Forças Armadas devem ser a fortaleza do poder civil. “Naturalmente, as Forças Armadas já o são, por defenderem veementemente a democracia”, acrescentou.
Confesso que hesito entre pedir ao capitão que se cale para não dizer tantas idiotices ou se o aconselho a continuar a falar o que bem entenda. Se calasse, não assustaria as pessoas que tanto dependem dele nem atrapalharia o governo que mal começou, e que começou tão mal. Mas, por outro lado, os 58 milhões de brasileiros que o elegeram perderiam a oportunidade de conhecê-lo melhor. Não seria justo.

 

BLOG DO JOSIAS
Josias de Souza

Carlos Bolsonaro joga ‘redes’ contra Congresso
Escalado para trombetear nas redes sociais o que o governo chama de “Nova Previdência”, o vereador carioca Carlos Bolsonaro (PSC), filho ‘Zero Dois’ do presidente, levou duas postagens ao ar na noite da quinta-feira pós-carnavalesca. Em ambas insuflou os internautas contra o Legislativo. Num post, Carlucho divulgou vídeo em que o ministro Paulo Guedes (Economia) revela seu entusiasmo com as perspectivas econômicas do Brasil pós-reforma. Anotou na legenda: “…Cabe à população cobrar dos deputados federais e senadores que não criem distinções que o favoreçam (sic).”.
Noutro post, o ‘pitbull’, como Bolsonaro se refere ao filho, anexou vídeo protagonizado pelo pai. Na legenda, contou “a verdade”. Ei-la: “É preciso agora cobrar firmemente o Congresso para que não mudem as regras enviadas, que retiram os benefícios políticos e extinguem privilégios de muitas outras classes!” Carlos guardou os elogios para o pai: “…Nenhum presidente jamais teve coragem de fazer!” .
O último bolsonarista que se dirigira ao Congresso assim, com a língua em riste, havia sido o próprio Paulo Guedes. Deu-se em novembro do ano passado, ainda na fase de transição de governo. Na época, até os líderes de partidos simpáticos a Bolsonaro estranharam o modo como o Posto Ipiranga se referiu à tramitação legislativa da reforma da Previdência. “O presidente tem os votos populares e o Congresso, a capacidade de aprovar ou não”, declarou Paulo Guedes. “Prensa neles, prensa neles, pede a reforma, é bom para todo mundo”, ele acrescentou. Prensa, como se sabe, é aquele aparelho mecânico que serve para achatar objetos. O diabo é que os congressistas preferem pressionar o governo a levar prensas.

Militares viraram a tecla SAP de Jair Bolsonaro
As manifestações de Jair Bolsonaro instilam na alma do brasileiro uma sensação insuportável de exílio, uma brutal nostalgia do Brasil. Todos sabiam que o presidente da República não fala as línguas de Dante, Goethe e Shakespeare. Mas ninguém imaginava que estivesse desaprendendo a de Camões. Expressa-se num idioma muito parecido com o português, uma espécie de bolsonarês. Para compreendê-lo, tornou-se imperioso esperar pela tradução dos militares.
No original, Bolsonaro virou um outro nome para controvérsia. Ele vai de uma polêmica a outra sem a concessão de um entreato para que a plateia tome fôlego. Com naturalidade hedionda, pula do ‘golden shower’ para a democracia relativa, que “só existe quando as Forças Armadas assim o querem”. Não há nota oficial ou esclarecimento capaz de acompanhar a fecunda loquacidade do capitão.
A nota do porta-voz da Presidência, general Rêgo Barros, sobre o apreço de Bolsonaro pelo Carnaval mal conseguira sedar o noticiário da véspera e o chefe do GSI, general Augusto Heleno, já teve de levar a cara às redes sociais para traduzir um Bolsonaro que estava ao seu lado. O presidente perguntou se Heleno enxergara alguma polêmica em suas declarações sobre democracia.
E o general: “É claro que não. Isso não tem nada de polêmico, ao contrário. Suas palavras foram ditas de improviso, para uma tropa qualificada, e foram colocadas exatamente para aqueles que amam a sua pátria, aqueles que vivem diariamente o problema da manutenção da democracia e da liberdade, e exortando para que [os militares] continuem a fazer o papel que vêm fazendo, de serem os guardiões da democracia e da liberdade.”
Numa transmissão ao vivo na página de Bolsonaro no Facebook, Heleno culpou a imprensa pela eletrificação do noticiário. “Tentaram distorcer isso como se [a garantia da democracia] fosse um presente das Forças Armadas para os civis. Não é nada disso.” Mais cedo, outro general, o vice-presidente Hamilton Mourão, também atribuíra os ruídos à incapacidade dos jornalistas de compreender o bolsonarês. “Está sendo mal interpretado. Ele falou que onde as Forças Armadas não estão comprometidas com democracia e liberdade esses valores morrem. É o que acontece na Venezuela. Lá, as Forças Armadas venezuelanas rasgaram isso aí.”.
Quando você assiste a um filme pela televisão, pode escolher entre ouvir o som dublado ou apertar a tecla SAP, para escutar a fala dos atores no original —normalmente em língua inglesa. No enredo estrelado por Bolsonaro, os militares viraram uma espécie de tecla SAP do presidente da República. Vale o que eles dizem na dublagem, não o que se ouve no original. Com dois meses de governo, o que Bolsonaro balbucia já não se escreve. No seu ‘Diário Intemporal’, Mário da Silva Brito atribui a Monteiro Lobato a seguinte frase: “A pátria é o idioma, e só no idioma pátrio a gente pode pensar bem e dizer besteira.”.
Pode-se dizer em bolsonarês as mesmas besteiras que seriam ditas em português. A diferença é que, na pátria em que os brasileiros estão momentaneamente exilados, Bolsonaro pensa mal. Frequentemente, ele envereda pela trilha do eufemismo. Cospe cacófatos em série. Abraça qualquer substantivo promíscuo que enxerga pela frente. Não consegue livrar-se das mordidas dos anacolutos. E desespera-se ao notar que chega sempre ao mesmo lugar-comum. Até os tradutores militares estão achando tudo muito monótono.

Ministro suspeito envelhece a gestão Bolsonaro
Jair Bolsonaro especializa-se na arte de armar emboscadas para si mesmo. Ordenou a Sergio Moro, ministro da Justiça, que acionasse a Polícia Federal para investigar o caso das candidaturas laranjas do seu partido, o PSL. Simultaneamente, manteve na pasta do Turismo um dos personagens mais enrolados no escândalo do laranjal, o ministro Marcelo Álvaro Antônio. A dicotomia deu à luz um paradoxo: a defesa do ministro do Turismo busca no Supremo Tribunal Federal proteção contra a curiosidade da polícia do ministro da Justiça e do Ministério Público.
A situação de Marcelo Antônio é cada vez mais precária. Surgiu em Minas Gerais uma personagem, Zuleide Oliveira, que acusa diretamente o ministro do Turismo de tê-la convidado para ser uma candidata-laranja do PSL nas eleições passadas. Nessa versão, a intenção de desviar verbas do fundo partidário foi explicitada no convite. A Polícia Federal de Sergio Moro se equipa para interrogar a denunciante.
Simultaneamente, o investigado Marcelo Antônio renova no Supremo o pedido para que a encrenca seja exportada de Minas Gerais para Brasília. Ele alega que dispõe do velho e bom foro privilegiado. O ministro Luiz Fux já decidiu que o escudo não vale para o laranjal. Mas o auxiliar de Bolsonaro voltou à carga. Pede que seu recurso seja julgado pelo plenário do Supremo. Marcelo Antônio virou uma caricatura de si mesmo. Faz o que pode para travar investigações que ele mesmo exalta como vitais para provar sua hipotética inocência.
O governo Bolsonaro tem 22 ministros. Sete ostentam algum tipo de suspeição. Isso seria deplorável em qualquer circunstância. Mas o convívio com a interrogação moral torna-se um escárnio num governo que é comandado por um presidente que se elegeu enrolado na bandeira da ética. No caso de Marcelo Antônio, cuja biografia se liquefaz como sorvete no Sol, ao mantê-lo na poltrona de Ministro do Turismo, Bolsonaro transforma o derretimento de um ministro num processo de envelhecimento precoce de um governo que começou faz dois meses.
– Atualização feita às 22h21 desta quinta-feira (7/03): A assessoria do ministro Marcelo Álvaro Antônio (Turismo) informou que ele mandou que seus advogados desistam do recurso protocolado no STF.



Jose Mauricio dos Santos
Autor: Jose Mauricio dos Santos
Jornalista, Cientista Político e especialista em Marketing Político.

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