Backstage News Brasil 18/02/19 – Planalto: clima tenso com caso Bebianno e reforma da Previdência

O Backstage News é um produto diário da Tracker Consultoria que reúne os principais colunistas de política do País com informações dos bastidores do Poder.

 

FOLHA DE S. PAULO

Painel
Daniela Lima

Trabalho de formiguinha
Sindicalistas estão montando uma estratégia para tentar mudar o texto da reforma da Previdência na Câmara. A partir da próxima semana, assim que o projeto chegar na Casa, eles farão uma incursão nos gabinetes dos deputados para convencê-los a incluir emendas na proposta do Planalto. Já está certo que ao menos dois pontos serão defendidos pelo grupo: a diminuição da idade mínima, fixada por Jair Bolsonaro em 65 anos para homens e 62 para mulheres, e um prazo maior para a transição.

Verão passado
Uma das principais preocupações do governo em relação à reforma é a força do lobby de entidades que representam servidores públicos. Integrantes do Planalto lembram que elas tiveram papel importante na formação da oposição ao projeto de Michel Temer.

De porta em porta
Políticos e técnicos do governo com trânsito no funcionalismo vão fazer uma imersão nessas entidades para convencê-las a apoiar a reforma de Bolsonaro.

Teste de paternidade
A ala do DEM que atua para fazer de Pedro Paulo (DEM-RJ) relator das mudanças nas regras de aposentadoria esbarra na resistência da cúpula do partido. Com Rodrigo Maia (DEM-RJ) alçado a fiador da proposta no Congresso, o grupo que resiste à ideia diz que emplacar um nome da sigla na relatoria faria eventual fracasso cair direto no colo da legenda.

Dobradinha
Integrantes do PSL costuram um acordo de revezamento no comando da Comissão de Constituição e Justiça, que está reservado ao partido. Pelo desenho atual, o colegiado seria presidido por Felipe Francishini (PSL-PR) neste ano e, no seguinte, por Bia Kicis (PSL-DF).

Precaução
O Senado disparou alerta na intranet da Casa sobre relatos de tentativas de golpes telefônicos contra senadores. Nas ligações, a outra pessoa se passa por parlamentar, alega dificuldades e pede dinheiro e depósito em banco.

Tem sua hora
O governo de São Paulo quer esperar a aprovação do marco regulatório do saneamento, previsto em Medida Provisória que tramita no Congresso, antes de bater o martelo pela privatização ou capitalização da Sabesp. Integrantes da gestão de João Doria (SP) avaliam que o melhor para estatal é privatizá-la.

Que momento
O Ministério Público Federal vai questionar a Agência Nacional de Mineração sobre a indicação do órgão de que vai mudar os parâmetros de medição da estabilidade de barragens. Em minuta de resolução que vai à consulta pública neste mês, a ANM reduziu de 1,5 para 1,3 o nível mínimo de fator de segurança que as estruturas devem ter.

Jogada casada
Integrantes do MPF observam que, em documento da Vale de 2018, especialistas consultados pela empresa defendiam o fator de 1,3, como suficiente para atestar a estabilidade das barragens. A desconfiança de procuradores é a de que a ANM tenha alterado o índice para não considerar instáveis outras construções da mineradora.

Linha de corte
Procuradores alegam que nem mesmo as barragens que têm índice de segurança de 1,5 ou mais estão afastadas de certos riscos e sustentam que não há porque diminuí-lo.

Chumbo trocado
Pessoas próximas a Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) replicaram em redes bolsonaristas texto de uma simpatizante do escrito Olavo de Carvalho contra Gustavo Bebianno.

Chumbo trocado 2
A versão, que circulou neste fim de semana, insinua que Bebianno era um agente infiltrado que agia contra os interesses do governo, conspirando contra os filhos do presidente e vazando informações sensíveis à imprensa.

Covil
Com a iminente queda de Bebianno, ala ligada ao clã Bolsonaro e simpatizante de Olavo de Carvalho trabalha contra a promoção do general Floriano Peixoto à Secretaria-Geral da Presidência. Esse grupo defende que o posto fique com o general Santos Cruz, hoje à frente da Secretaria de Governo.

Tiroteio
Excluir a América Latina da formação dos diplomatas mostra desprezo pela região e coloca o Brasil de costas para a sua história
De Roberto Menezes, professor de relações internacionais da UnB, sobre o chanceler Ernesto Araújo ter tirado a região de curso no Rio Branco

Mercado Aberto
Cris Frias

Subsídio à luz de agricultores fará tarifa subir 2,1% em 5 anos
Governo regulamentou, em 2018, a progressão do fim do incentivo a produtores rurais
Se o subsídio ao consumo de luz elétrica aos produtores rurais for mantido, a tarifa dos demais clientes ficará 2,09% mais cara em cinco anos, de acordo com cálculos da Aneel (agência nacional de energia).
No fim do ano passado, o governo regulamentou a progressão do fim do subsídio. O incentivo aos consumidores do campo vai terminar paulatinamente, até ser extinto em cinco anos.
Os deputados da bancada ruralista apresentaram um projeto de lei para derrubar o decreto presidencial.
“O que nos espantou foi que um governo no apagar das luzes assinou um decreto com tamanha abrangência”, afirma Heitor Schuch (PSB-RS), autor da proposta.
O tamanho do subsídio, de cerca de R$ 3 bilhões é, para ele, “um pingo de água no oceano” se comparado aos outros, afirma Schuch.
Para a Abrace (associação dos grandes consumidores), a conta para o resto dos clientes ficará ainda mais alta que os 2,09% previstos pela Aneel.
“Pela nossa conta, a alta será de 3% a 4%, porque nós incluímos impostos que incidem na conta de luz”, diz Paulo Pedrosa, presidente da entidade.
O tema da redução dos subsídios foi tratado pelo governo desde 2016, segundo Claudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil.
“Há uma lei que passou por audiências públicas e discussões que obriga a reduzir essas subvenções. O decreto do fim do ano passado só materializa o trabalho.”
Para as entidades que acompanham o tema, a bancada ruralista tem força e organização para conseguir aprovar o projeto de lei que derruba o fim dos subsídios.

Mônica Bérgamo

Bebianno diz que recebe ameaças depois de ter telefone divulgado
O ministro Gustavo Bebianno, da Secretaria-Geral, relatou a pelo menos dois amigos próximos que está recebendo ameaças por meio de seu número de WhatsApp.
Elas teriam começado a ser feitas no domingo (17). Bebianno estuda denunciar o fato às autoridades.
Desde que começou a crise envolvendo a permanência do ministro no cargo, o telefone dele foi espalhado em grupos de redes sociais. Desde então, as ameaças começaram a ser disparadas.
Um dos interlocutores de Bebianno diz acreditar que 99% das ameaças são “bravatas” de “bolsominions”, como são chamados os apoiadores mais radicais do presidente Jair Bolsonaro (PSL) nos meios de oposição.
Apesar disso, ele está sendo aconselhado a cuidar de sua integridade física. No domingo (17), depois que diversos meios de comunicação publicaram que ele poderia cair atirando em Jair Bolsonaro, Bebianno disse à coluna que não pensava em atacar o presidente.
Procurado nesta segunda (18), o ministro não foi encontrado para comentar.

Vale já fez 254 doações de R$ 100 mil para parentes de mortos em Brumadinho
A empresa segue negociando com as famílias o pagamento de indenizações
A Vale já pagou 92 auxílios-funeral para vítimas da tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais, além de 45 seguros de vida. Fez também 254 doações emergenciais de R$ 100 mil para familiares dos que morreram no acidente.

IMPASSE
A empresa segue negociando com as famílias o pagamento de indenizações por danos morais e materiais.
Não há consenso sobre os valores.

FIRMA RECONHECIDA
A Prefeitura de Vitória (ES) obrigou a mineradora a assinar um Termo de Desinterdição Condicionada (TDC) para voltar a funcionar na capital.

RESPIRO
O documento exige que a Vale compre e instale novas estações de medição da qualidade do ar. A empresa tem 120 dias para entregar estudo que indique o número de estações e os locais onde elas deverão ser colocadas.

AR PURO
A Vale também passa a ser a responsável por implantar um centro de supervisionamento da qualidade do ar e terá que capacitar técnicos da Secretaria de Meio Ambiente. Os dados gerados sobre a poluição deverão ser disponibilizados online.

AQUI ESTOU
As 98 anos, o banqueiro Aloysio Faria, do grupo Alfa, prestou depoimento na 1ª Vara Empresarial de SP numa ação proposta por seu ex-genro, Carlos Nascimento. Ele pede a metade das empresas do ex-sogro alegando que era sócio de fato dele. Nascimento é representado pelo advogado Modesto Carvalhosa.

FOLHA
A defesa do banqueiro, assinada pelo advogado Sergio Bermudes, alega que Nascimento sempre foi apenas executivo do grupo.

FOLHA 2
Há alguns anos, Nascimento moveu uma ação trabalhista contra o banqueiro na Justiça do Trabalho e perdeu. Ele pedia a indenização como empregado. Mas foi reconhecido como executivo.

NO TOPO
Aloysio Faria é um dos homens mais ricos do Brasil. Segundo a revista Forbes, ele tem uma fortuna de US$ 2,5 bilhões —a 23ª maior do país.

 

O ESTADO DE S. PAULO

Coluna Estadão
José Alberto Fiorin Bombig

Planalto deve desistir de ‘monitorar’ as ONG
Com o apoio do Planalto e da liderança governista na Câmara, a deputada Bia Kicis (PSL-DF) apresentará uma emenda substitutiva à medida provisória que dá ao Executivo poder de monitoramento sobre organizações da sociedade civil. Publicada no primeiro dia do ano, a MP 870, que reestrutura a geografia da Esplanada, atribui ao governo “supervisionar, coordenar, monitorar” as ONGs. Havia dúvidas até quanto a sua constitucionalidade. O novo texto prevê apenas “acompanhar as ações, os resultados e verificar o cumprimento da legislação”.

Tem mais
Bia vai apresentar ainda outras três mudanças na MP 870. Uma delas prevê que, para nomeação e exoneração de assessores de controle interno, o órgão deve ter aval prévio da CGU. Hoje ele tem autonomia de decisão.

Diálogo
O general Santos Cruz recebeu representantes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Instituto Sou da Paz e Instituto Igarapé na quinta-feira.

Diálogo?
A foto que ele postou nas redes sociais foi alvo de duras críticas de seus seguidores, chamando o encontro de “terrível” e os membros das ONGs de “lixo desarmamentista”.

Barreira…
Há grande expectativa na equipe econômica de Paulo Guedes e também na Casa Civil sobre possíveis efeitos no Congresso da crise que culminou com a queda de Gustavo Bebianno da Secretaria-Geral da Presidência.

… de contenção
Até a última sexta-feira, a avaliação era de que ela não havia respingado no Legislativo. Mas o imbróglio se arrastou no final, a lavação de roupa suja não parou nos bastidores e a atenção será redobrada a partir de hoje.

Bingo
Conforme revelou a Coluna, se Bebianno deixasse o Planalto, seria substituído por um militar ou o cargo dele seria extinto. O capitão da reserva Jair Bolsonaro ainda mantém total confiança nos seus pares, afirma quem o conhece.

Confie em mim
No seu giro pelo Nordeste, Rodrigo Maia disse a Paulo Câmara, governador de Pernambuco, que a reforma da Previdência vai preservar os mais pobres e propor um pente-fino nas pensões.

No ar 1
Não foi só o ex-governador Márcio França (PSB) que abusou do uso dos helicópteros da PM. A ex-primeira-dama Lúcia França usou 65 vezes as aeronaves oficiais entre abril e dezembro de 2018.

No ar 2
Os helicópteros levaram a ex-primeira-dama para cultos religiosos e até eventos políticos no ano passado. Em 2017, Lu Alckmin, mulher do ex-governador Geraldo Alckmin, fez 37 voos, 43% a menos do que Lúcia França. A assessoria de Márcio França diz que ela tinha direito ao uso dos aparelhos.

Efeito Brumadinho
A Agência Nacional do Petróleo debate amanhã, no Rio, o transbordo de petróleo em alto-mar. Mesmo sendo considerada de alto risco ambiental, a prática tem fiscalização mais frouxa que as operações realizadas em terminais portuários.

Juntos
O advogado Mariz de Oliveira divulgou áudio agradecendo o apoio dos colegas após a quebra do sigilo bancário do escritório dele no âmbito da Operação Cui Bono?. “Solidariedade que me emociona às lágrimas.”

Bombou nas redes!
Janaína Paschoal, deputada estadual (PSL-SP): “Vejam aí o PT e o PSDB tentando explicar a irmandade!”, sobre o Estado ter mostrado o acordo entre tucanos e petistas na eleição para a presidência da Assembleia.

Eliane Catanhêde

A militarização do governo
Enquanto Bolsonaro gera crises, generais executam uma política clara de ocupação de espaços
A queda estrondosa do ministro Gustavo Bebianno e a confirmação de que o Brasil vive a era da “filhocracia” reforçam uma tendência clara: quanto mais o presidente Jair Bolsonaro tropeça nos próprios pés, mais os militares se aprumam, ganham poder e se infiltram em todos os setores do governo, não mais apenas em áreas fortes do Exército, como a infraestrutura, mas até em política externa, educação e meio ambiente.
Ao anunciar nesta semana o fim da Superintendência do Ibama no DF e a substituição de exatamente todos os demais 26 superintendentes estaduais, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem um objetivo muito claro: substituir pelo menos 20 deles por militares.
“Não se pode brincar com isso, os superintendentes é que concedem licenças e alvarás e eu não sou obrigado a conhecer gente confiável em todos os Estados, no Amapá, no Acre, em tantos lugares em que nunca fui”, diz Salles.
Ele pediu ajuda ao Ministério da Defesa e aos generais do entorno de Bolsonaro para sugerir nomes. Como os militares têm boa formação e se aposentam cedo, como coronéis e capitães, não é difícil encontrar mão de obra. Eles, aliás, já ocupam cargos-chave no ministério de Salles, inclusive a chefia de gabinete.
No caso da Educação, houve até quem sonhasse em ter um general no MEC, mas a ideia não vingou porque a reação poderia ser de surpresa, primeiro, e de confronto, depois. Mas o que não falta no governo é gente enaltecendo os colégios e institutos militares, que de fato são de excelência, e articulando um processo de longo prazo para militarizar o ensino público.
A experiência-piloto pode ser no Distrito Federal, onde o governador Ibaneis Rocha criou por portaria a “gestão compartilhada” das escolas, entre as secretarias da Educação e da Segurança, e assim empurrar policiais militares e bombeiros da reserva para 40 escolas até o fim do ano. Isso implica “mais disciplina”, com Hino Nacional todo dia, alunos de fardas e marchando.
Assustados com a violência que grassa no DF – quanto mais violenta a região, mais violenta a escola –, pais e mães até se animam com a ideia, mas os pedagogos, assustados, argumentam que “militarização” das escolas é muito diferente de policiamento ostensivo para garantir a segurança de alunos e professores.
Aliás, fica uma dúvida: se o presidente da República pode usar chinelo e camiseta de time de futebol em reunião com ministros, com foto distribuída publicamente, por que alunos têm de vestir fardas, as meninas precisam andar de coque e os meninos de cabelo curto?
Os generais que cercam (em vários sentidos) Bolsonaro no Planalto também têm posições muito claras sobre política externa e agem para o fim das maluquices e a volta do pragmatismo. Se combatem a “esquerdização” do Itamaraty após a era Lula, eles também não gostaram dos excessos do chanceler Ernesto Araújo para o outro lado e trataram de reequilibrar as coisas.
Enquanto recebiam representantes da China e do mundo árabe para amenizar o mal-estar causado pelo novo governo, também amansavam o próprio Araújo, que foi escolhido por Eduardo Bolsonaro, o 02 do presidente, e agora parou de escrever aquelas excentricidades. Ele parece bem mais razoável ao vivo do que por escrito.
Por fim, foram os generais Hamilton Mourão, Augusto Heleno e Santos Cruz que se investiram de uma função política ao tentar – inutilmente, aliás – apagar o incêndio que está torrando o ministro Gustavo Bebianno, um dos dois únicos civis com algum poder no Planalto de Bolsonaro. O outro é Onyx Lorenzoni. Ele que se cuide, enquanto Paulo Guedes, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre se blindam da crise e tocam o que interessa: a reforma da Previdência e a recuperação da economia.

Direto da Fonte
Sônia Racy

Cenário externo reforça euforia na economia
Pergunta que não quer calar: por que os mercados estão tão entusiasmados, batendo recordes de alta e movimentação, mesmo ante a dramática situação fiscal e previdenciária brasileira?
Esse otimismo, segundo se apurou ontem, não se restringe à expectativa favorável com relação à melhora da economia e à aprovação da reforma da Previdência – mesmo que ela não seja ainda a ideal.
O fato se deve também à forte influência positiva provocada pelo cenário externo.

Falta sustentação nesse cabeça-cabeças
Entretanto, nem todos fazem parte dessa manada que estourou apostando no bom caminho da economia de maneira generosa, minimizando os possíveis percalços políticos pela frente.
Para alguns integrantes da área financeira faltam peças importantes de sustentação nesse quebra-cabeça.

Governo se sustenta em ‘mesa de seis pernas’
Segundo relata reconhecido investidor – também perspicaz observador histórico dos movimentos econômicos e políticos no Brasil –, o governo de Jair Bolsonaro tem se sustentado em uma mesa de seis pernas.
Três delas, segundo ele, teriam solidez. As formadas pelos militares e pelas equipes de Paulo Guedes e Sergio Moro– três grupos cujos objetivos e rumos são fáceis de entender.
As outras três pernas ele considera “temerárias” e as divide entre três forças diferentes. A primeira, batizada de “grupo dos templários”, incluiria os ministros da Educação, do Itamaraty, mais Olavo de Carvalho e seguidores – cuja lógica o investidor considera precária.
A segunda, denominada “saco de gatos”, é constituída pela base de apoio ao governo no Congresso, cujo preparo considera fraco e sem o sentido de uma coligação real.
“Cada parlamentar tem indicado que vai trilhar o caminho que acha melhor”, observa. E a terceira, no seu raciocínio, se resume ao núcleo familiar de Bolsonaro que certamente “nunca tentou fazer uma DR efetiva”.
A mesa fica de pé com três pernas? “Por ora sim, mas para dar passos mínimos precisará de outras”.

Bebianno afirma que se sair do governo, não o fará atirando
A pelo menos um interlocutor ontem, Gustavo Bebianno assegurou que caso tenha que sair do governo, não o fará atirando. “Eu não preciso disso, é o Jair que está atirando em si próprio”.
O fato é permanência definitiva dele no governo ainda está longe de garantida, seja por vontade própria, seja por decisão do Planalto. O processo de desgaste deflagrado por Carlos Bolsonaro e impulsionado pelo próprio presidente – no qual Bebianno foi chamado publicamente de mentiroso – não tem volta.

Vera Magalhães

Autocombustão
O governo Jair Bolsonaro já estava paralisado sem nem ter começado. A expectativa era de que essa letargia cessaria com a alta do presidente da República após duas semanas de internação. Mas a prioridade de Bolsonaro e família ao deixar o hospital não era a reforma da Previdência, mas incinerar um aliado nas redes sociais, sem se dar conta de que a chama poderia voltar e chamuscar o próprio governo.
A semana terminou com Gustavo Bebianno ainda pendurado ao cargo por um fio. Parece que Bolsonaro vai demiti-lo oficialmente na segunda-feira, mas não é bom cravar nada. Afinal, o presidente chamou o seu secretário-geral da Presidência de mentiroso enquanto ainda estava no hospital, deixou o filho brincar de fritá-lo no Twitter, deu ordem para mantê-lo no cargo e, depois, o demitiu verbalmente. Mas nada está formalizado. Este, aliás, não é um governo que se atenha a formalidades.
Num show de horrores digno de programa de barraco familiar vespertino, Carlos Bolsonaro deixa vazar áudios privativos do presidente e o ministro atingido replica fazendo vazar conversas suas com o mesmo presidente. Eis a “nova era” da comunicação direta com o povo. Um coquetel perigoso de despreparo, arrogância, autoritarismo e ingenuidade leva os Bolsonaros a jurarem que estão revolucionando a forma de fazer política e se comunicar, mas se esquecem de que as armas que usam para aniquilar inimigos (mesmo aqueles que eram amigos até ontem) podem se voltar contra eles. Afinal, se não há privacidade assegurada, vale tudo na selva das redes sociais.
Quem mais tem a perder com isso é quem tem mandato. No caso, o presidente, que insiste em brincar no Twitter ou bancar o sujeito bonachão que se deixa fotografar de chinelo e camiseta pirata de time de futebol enquanto arbitra o futuro dos brasileiros na questão mais relevante de seu governo.
Acontece que o teatro do caos vai cansando mesmo aqueles que votaram nele. Sim, porque o coquetel demoníaco a que me referi faz com que o clã tuiteiro viva a ilusão de que o patriarca foi eleito única e exclusivamente pelas redes sociais, quando muitos apenas taparam o nariz e apertaram o 17 achando que era menos pior que o 13 do PT, que levou o País à bancarrota.
Bolsonaro foi eleito por 57.797.456 de pessoas. Menos que os 58.151.241 que votaram em Fernando Haddad, em branco ou nulo. Quando se somam a esse contingente de votos contra ele os 31.371.704 que se abstiveram, tem-se um número que deveria ser eloquente para qualquer mandatário sensato ver que precisa mostrar serviço sob pena de ver a popularidade ruir.
Agora, paralelamente à apresentação de um texto que mexe diretamente com a vida das pessoas, como é a reforma da Previdência, tem-se a encenação de uma ópera bufa da demissão de alguém que sabe tudo da vida da família Bolsonaro. O presidente parece não se lembrar de que Bebianno, antes de ministro do palácio e coordenador da campanha, foi seu advogado! Conhece, portanto, o histórico patrimonial da família, as relações de amizade, as entranhas dos gabinetes de todos e os acordos que foram feitos para o desembarque da tropa bolsonarista no PSL, que era e continua sendo uma legenda de aluguel nas mãos de Luciano Bivar.
O poder que tem alguém com esse nível de acesso, humilhado reiteradamente e com uma clara disposição de não ter a reputação destruída, é imprevisível. A frase dita a mim por Bebianno dá uma pista do que está por vir: “O que eles que chamam de inferno, eu chamo de lar”. A citação não é de nenhum filósofo. Como uma boa metáfora da era Bolsonaro, ela é o slogan do segundo filme da série Rambo, que retrata um militar expurgado, armado até os dentes e disposto a tudo para se vingar.

 

O GLOBO

Bernardo Mello

No caso Bebianno, a mentira é o que menos importa
Na versão oficial, o novo governo terá a primeira baixa por causa de uma mentira. O vereador Carlos Bolsonaro acusou o ministro Gustavo Bebianno de relatar conversas inexistentes com o pai. “Mentira absoluta”, tuitou o Zero Dois. O presidente apoiou o filho e reforçou a fritura do auxiliar.
O tiroteio verbal agravou a crise, mas desviou o foco de sua origem. Bebianno está na berlinda porque comandava o PSL quando o partido que prometeu limpar a política declarou gastos com candidatos fantasmas. A família do presidente culpa o ministro pelo laranjal. Ele ameaça espremer o chefe depois que virar suco.
Como os repasses saíram do fundo eleitoral, o conflito de versões é o que menos importa. O essencial é saber quem embolsou o dinheiro público. E o que Bebianno está disposto a revelar sobre a “campanha mais pobre da história do Brasil”, nas palavras do presidente.
Se a mentira virasse critério de corte, sobraria pouca gente no governo. Na última semana, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu que Chico Mendes era grileiro de terras. O ambientalista lutou pela floresta amazônica e foi assassinado a mando de um fazendeiro. Salles foi condenado por improbidade administrativa, acusado de fraudar mapas para favorecer uma mineradora.
A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, já virou folclore pelas cascatas em série. Antes de assumir o cargo, ela inventou que hotéis-fazendas incentivam a zoofilia e que os holandeses ensinam bebês a se masturbar. Em sua última contribuição ao anedotário, incentivou todos os pais de meninas a fugirem do país.
Os delírios da pastora sugerem que ela habita um mundo à parte, onde o fundamentalismo borra as linhas que separam realidade e ficção. O chanceler Ernesto Araújo parece orbitar o mesmo planeta quando nega as mudanças climáticas e promete libertar o Itamaraty do “marxismo cultural”.
Bolsonaro também tem uma relação conflituosa com os fatos. Na campanha, ele espalhou informações falsas sobre o voto eletrônico, a distribuição de livros escolares e a sua própria produção legislativa, entre outros temas. Em janeiro, foi a Davos e disse que o Brasil é “o país que mais preserva o meio ambiente”. Três dias depois, o mundo se chocou com as imagens de Brumadinho.
A exemplo de Donald Trump, de quem é fã, o presidente reage a cada desmentido acusando a imprensa de difundir “fake news”. No fim de 2018, o jornal “The Washington Post” atualizou a contagem das declarações falsas do republicano, um farsante contumaz. Concluiu que ele contou mais de 5.600 mentiras no ano. Uma média superior a 15 embustes por dia.

Mourão caiu na malha fina da Receita
O vice-presidente Hamilton Mourão caiu na malha fina da Receita Federal. Ele recebeu o auto de infração em 2 de janeiro, um dia depois de tomar posse.
O vice diz que se esqueceu de apresentar três recibos de despesas médicas com a primeira mulher, de quem ficou viúvo em 2016.
Ele afirma que localizou os papéis em seu apartamento no Rio e já os encaminhou ao Leão.

Lauro Jardim

A PF, o Postalis e as auditorias
A PF está interessada em conhecer os detalhes das relações que gigantes como Baker Tilly e KPMG mantêm como o Postalis, o fundo de pensão dos Correios.
A PF sabe o quanto as consultorias e empresas de auditorias desempenham papel fundamental para justificar o que os fundos fazem com o dinheiro dos contribuintes.

Governo recebe denúncias de violações em CTs de grandes clubes
Desde a tragédia que matou 10 garotos no CT do Flamengo, no último dia 8, o ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos recebeu nove denúncias de irregularidades em centros de treinamento de clubes ao redor do país.
Na lista há bandeiras tradicionais, como o próprio Flamengo, Grêmio, Grêmio Barueri, Payssandu e Santa Cruz.

A Bullish avança na denúncia
A Operação Bullish, aquela que investiga os aportes do BNDES no grupo J&F, já apurou danos aos cofres públicos de R$ 2 bilhões.
Neste momento, o MPF em Brasília está preparando a denúncia, enquanto o procurador Ivan Marx, que conduz a operação, aguarda uma reunião com a PGR para pedir apoio ao trabalho.
Marx não aderiu ao acordo de leniência já assinado pela J&F. Assim, é possível cobrar esses R$ 2 bilhões, além de outros decorrentes dos desdobramentos da Operação Bullish, em ação de ressarcimento.

E Bebianno vai ficando…
A mais do que esperada — até por ele — demissão do ministro Gustavo Bebianno, da Secretaria-Geral da Presidência, não saiu hoje no Diário Oficial da União.
A não ser que seja publicada uma edição extra do DO, Bebianno continua ministro hoje.
Ontem, no entanto, Onyx Lorenzoni se encontrou com Bebianno e não havia na mesa a discussão ou possibilidade de algo se reverter: estava posto que Bebianno seria exonerado.

Bolsonaro, Dilma e a longevidade dos seus ministros
Jair Bolsonaro levou 48 dias para demitir seu primeiro ministro — isso, claro, se a saída de Gustavo Bebianno se der hoje mesmo.
Dilma Rousseff demorou um pouco mais de seis meses — sacou Antonio Palocci no dia 7 de junho de 2011 — mas na média o governo da petista aceitou a demissão de 86 ministros, um a cada 22 dias.

Os royalties recebido pelo Rio de Janeiro em 2018
O Rio de Janeiro recebeu em 2018 um total de R$ 13,9 bilhões a título de royalties e participações especiais, de acordo com a ANP. Ainda assim, o estado está quebrado.

A homologação da delação de Léo Pinheiro
A delação de Léo Pinheiro deve ser homologada pelo STF já em março.

Votorantim de olho nas concessões do governo
A Votorantim vai entrar de cabeça nos leilões de concessão do governo Bolsonaro. Estuda prioritariamente três setores: energia, aeroportos e saneamento.
Mais: a empresa da família Ermírio de Moraes, que lidera a indústria de cimento no Brasil, decidiu ir às compras nos EUA e Europa, onde já tem fábricas.

Lava-Jato fluminense promete novas ações
A volta a campo anteontem da Lava-Jato fluminense, prendendo Régis Fichtner, ex-secretário de governo de Sérgio Cabral, foi só um aperitivo do arrastão previsto para as próximas semanas.

Laudo da PF sobre incêndio no Museu Nacional está prestes a ser concluído
Fica pronto em março o laudo pericial da PF sobre o incêndio do Museu Nacional, apontando a causa da tragédia.

A função de João Vaccari no presídio em Curitiba
Preso há quase quatro anos no Paraná, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari atua na penitenciária como uma espécie de intermediário dos pedidos dos detentos aos agentes.

O puxão de orelha de Santos Cruz nos filhos de Bolsonaro
Uma semana antes de Carlos Bolsonaro dar uma de primeiro-ministro virtual e jogar Gustavo Bebianno no ventilador, o general Santos Cruz avisou a um amigo que chamaria os três herdeiros de Jair Bolsonaro para uma conversa séria. Nela, diria que eles deveriam se emendar de uma vez por todas, caso contrário, o pai não conseguiria governar.

Renan deprimido
Desde que foi derrotado em sua tentativa de presidir o Senado pela quarta vez, Renan Calheiros está enfurnado em sua fazenda em Murici, Alagoas. Está deprimido.

Advogado assessor de Flávio facilitou contato com Queiroz
O MP já trabalha com a informação de que o advogado Victor Alves, assessor de Flávio Bolsonaro na Alerj, operou intensamente para ajudar o chefe no rolo de Fabrício Queiroz.
Era Alves, por exemplo, quem mantinha contato direto com Queiroz em nome de Flávio nos primeiros e tumultuados dias, quando o caso foi revelado e o ex-motorista estava sumido dos olhos do público.

Criminalização da homofobia: Bolsonaro elogia Mourão
Jair Bolsonaro, enfim, elogiou declarações de Hamilton Mourão.
Após ver o que o vice havia falado sobre o julgamento a respeito da criminalização da homofobia, o chefe mandou uma mensagem dizendo que, dessa vez, Mourão “não escorregou”.

Onyx, o próximo alvo?
Onyx Lorenzoni também não é exatamente benquisto de Carlos Bolsonaro.
A propósito, a possível sensação de vitória do 02 é uma preocupação visível do núcleo militar no entorno de Jair Bolsonaro.

‘O problema não é o pimpolho. O Jair é o problema’
Gustavo Bebianno não joga toda a culpa de sua demissão na conta de Carlos Bolsonaro.
A um interlocutor, disse:
— O problema não é o pimpolho. O Jair é o problema. Ele usa o Carlos como instrumento. É assustador.
Na tarde de sexta-feira, quando o incêndio de sua demissão parecia debelado, Bebianno demonstrava que a temperatura ainda ardia. Ao mesmo interlocutor, desabafou:
— Perdi a confiança no Jair. Tenho vergonha de ter acreditado nele. É uma pessoa louca, um perigo para o Brasil.

A Abin paralela de Carlos Bolsonaro
O indomesticável Carlos Bolsonaro pode muito, mas ainda não pode tudo no governo do pai.
Recentemente, teve uma ideia aloprada: montar uma estrutura paralela de inteligência, com delegados e agentes da PF de sua confiança.
O general Augusto Heleno, que, aliás, comanda a Abin, vetou a maluquice.

O jantar na véspera do bandejão
Jair Bolsonaro foi embora de Davos boquiaberto com o custo de vida na bucólica comuna suíça.
Na noite anterior ao da fatídica foto em que aparece almoçando num bandejão, Bolsonaro saiu para jantar com alguns de seus homens de confiança, como Sergio Moro e o filho, Eduardo.
Não estava preparado para o peso da conta. Cada comensal deixou no restaurante entre 110 e 140 francos suíços, (R$ 406 e R$ 517). Bolsonaro saiu reclamando com o “prejuízo” — em tese, quitado com cartões particulares.

A conversa entre Bolsonaro e Bebianno
A conversa de ontem entre Jair Bolsonaro e Gustavo Bebianno, testemunhada por Hamilton Mourão, Augusto Heleno e Onyx Lorenzoni, foi ríspida e recheada de palavrões.
Mas nela só os dois falaram.
Os outros três apenas ouviram. “Falei para ele umas verdades”, disse Bebianno a um interlocutor mais tarde.

Pelo que brilham os olhos de Onyx
Quem conhece Onyx Lorenzoni há 20 anos aposta: a menos que o governo Bolsonaro imploda no meio do caminho, ele disputará o governo do Rio Grande do Sul em 2022.

Bolsonaro ofereceu diretoria de Itaipu a Bebianno
Na dura conversa ocorrida hoje à tarde entre Jair Bolsonaro e Gustavo Bebianno, testemunhada por Hamilton Mourão, Onyx Lorenzoni e Augusto Heleno, foi oferecida uma diretoria de Itaipu Binacional ao ministro da Secretaria Geral da Presidência, que será exonerado na segunda-feira.
O salário de um diretor e Itaipu é de R$ 67,6 mil. Na estatal, são pagos 16 salários anuais. Ou seja, R$ 1.072 milhão ao ano. Bebianno recusou a oferta.

O diálogo entre Onyx e Bebianno
O delicado diálogo entre Gustavo Bebianno (na foto, à direita) e Onyx Lorenzoni, escalado por Jair Bolsonaro para botar água na maior crise do governo até agora, começou com uma pergunta do chefe da Casa Civil ao ministro da Secretaria-geral da presidência.
Lorenzoni quis saber se Bebianno estava disposto a arrefecer a fervura e continuar ministro. Bebianno assentiu.
A partir daí, Lorenzoni e Bebianno passaram a conversar sobre os episódios dos últimos dois dias e a combinar como aquilo ia ser transmitido para o país.
Não está prevista por enquanto qualquer conversa entre Jair Bolsonaro e Bebianno.

Merval Pereira

Na rede de intrigas
A crise que culminou com a queda do ministro da Secretaria-Geral da Presidência guarda dentro de si uma crise maior, alimentada pelo próprio Governo, a crise da democracia representativa. Esse é um fenômeno contemporâneo globalizado que vai se alastrando à medida que os novos meios de comunicação vão abrindo espaço cada vez maior para a participação direta dos cidadãos nas decisões politicas.
Esse empoderamento do cidadão tem seu lado negativo quando os políticos passam a se guiar pelas redes sociais, em vez de liderar ações necessárias ao país, mesmo quando impopulares. O atual Congresso é exemplo concreto desse momento conturbado que vive a democracia. Parlamentares montam estúdios em seus gabinetes para lançar mensagens permanentes, e votam de acordo com as redes sociais.
Um governo eleito fundamentalmente pela ação nas redes sociais, beneficiado pelo poder de expor suas idéias sem ser confrontado, devido à possibilidade de não comparecer a debates de televisão, sente-se dono da comunicação politica. E reputa de “inimigos” aqueles que contestam suas decisões. Um governo desse tipo fica exposto a intrigas e manipulações várias.
O caso em questão é exemplar dessa situação. Se o ministro Gustavo Bebianno foi demitido devido às acusações de manipulação ilegal de dinheiro na campanha eleitoral, a mesma decisão deveria ter atingido o ministro do Turismo, acusado também de desviar recursos partidários utilizando-se de “laranjas”.
Na verdade, independente de Bebianno ser ou não culpado, o que determinou sua derrubada foi uma disputa de poder com o filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro. Especialista em usar as mídias sociais para defender seus pontos de vista, ele teve atuação permanente durante a campanha, mesmo que apartado do aparato formal.
Foi um trabalho solitário, ao lado do pai, sem características profissionais, o que permite a ele até hoje o papel de portador da voz do presidente, fora do circuito oficial que assume posições com base na intermediação com o Congresso, nas pressões da sociedade, na representatividade das corporações, todos representantes da opinião publica.
Carlos, não. É do tipo Twittero que pretende formar a opinião pública, com o uso das novas tecnologias que permitem inclusive a potencialização do alcance das mensagens com o uso de robôs e técnicas de disparos em massa de mensagens que desequilibram a disputa de idéias no espaço público.
A democracia representativa está sendo desvirtuada pelas mídias sociais, transforma-se em uma nova espécie de democracia direta. A ética da responsabilidade que Max Weber definiu para a atuação política não pode submeter-se à irresponsabilidade das redes sociais. O político, como ressaltava o próprio Weber, tem sua ética peculiar, mas quando ela se confronta com a ética da consciência, não pode prevalecer.
O homem moderno, de posse da tecnologia, dispensa intermediários e pretende assumir as rédeas do próprio futuro, interferindo nos governos, na política nacional. A contrapartida deveria ser uma classe política capaz de cumprir seus deveres, de assumir o papel contra-majoritário justamente para guiar, e não ser guiado.
A democracia representativa se apresenta em contraposição à democracia direta, que com o uso de plebiscitos e consultas populares, torna mais fácil assumir decisões difíceis. O prefeito do Rio, Marcelo Crivela, que anuncia pretender fazer um plebiscito para decidir se derruba a ciclovia Tim Maia é exemplar desse comportamento.
O surgimento de governos populistas seria, para alguns estudiosos, sintoma de uma época cujos fracassos só superaremos se nos engajarmos na defesa da política contra a democracia despolitizada. O novo ativismo, é individualista, isolado, orientado para questões de estilo de vida e crescentemente apolítico. A democracia representativa sofre, segundo esses especialistas, com a ambivalência de cidadãos cujas demandas desarticuladas são frequentemente contraditórias.
O cidadão empoderado não tem responsabilidade por suas opiniões nas redes sociais, e os políticos e governantes não podem resolver que a solução é seguir a maioria que se expressa nas redes sociais, que certamente não representa a maioria dos cidadãos e pode muito bem estar sendo manipulada.

Uma demissão desnecessária
O caso Bebianno não poderia se encerrar com a aparente derrota de Carlos Bolsonaro, o filho 02, ou a do próprio presidente, obrigado a suspender, pelo menos temporariamente, a demissão do chefe da Secretaria-Geral da Presidência. Mágoas certamente ficariam, de todos os lados, e dificilmente seriam superadas.
O vereador Carlos, ao retomar suas funções, assinou uma petição na Câmara do Rio para homenagear o vice-presidente da República Hamilton Mourão. De quem insinuou certa vez ter interesse na morte de seu pai. É um recuo e tanto para um pitbull como Carlos que, ao contrário de seu poodle Pituka, não é de amansar a troco de nada. Vê-se agora que sabia que venceria essa queda de braço.
O caso fora resolvido com a desistência temporária de demitir seu ministro porque Bolsonaro fora confrontado com a gravidade da situação por ministros militares do nível do Chefe do Gabinete Institucional (GSI) Augusto Heleno, e políticos, como o Chefe do Gabinete Civil Ônix Lorenzoni.
O primeiro, dando a dimensão da crise institucional que a demissão intempestiva acarretará, o outro mostrando a importância politica de manter-se o governo fora de turbulências desnecessárias, especialmente agora que a maioria potencial do governo precisa ser organizada para aprovar a reforma da Presidência.
Essa dimensão do cargo que ocupa, de que não é mais um deputado, como salientou o presidente da Câmara, é o que parece estar faltando a Bolsonaro. A foto dele despachando com ministros e assessores vestindo a camisa falsificada do Palmeiras é exemplo de que não respeita a liturgia do cargo, de que não tem nem quer ter a compostura que a presidência da República exige.
Bolsonaro precisa descer do palanque imediatamente. As sandálias de plástico que usava na foto oficial são da mesma origem das caspas que Jânio Quadros jogava sobre os ombros, para compor um personagem “gente como a gente”. Mas Jânio deixava o populismo para o palanque, era até excessivamente formal no cotidiano presidencial.
O agora ex-ministro Gustavo Bebianno negociou sua permanência no cargo com políticos e militares, e surpreendeu o presidente Bolsonaro no primeiro momento com o apoio que recebeu. Agora o governo terá que dobrar esforços no Congresso para superar a falta de intermediários gabaritados durante as negociações sobre a reforma da Previdência. Um dos casos que tocou um nervo exposto da família Bolsonaro foi o contato de Bebianno com interlocutores considerados “inimigos”, na busca de ampliar apoios para a aprovação da reforma.
A demissão do ministro Gustavo Bebianno é a confirmação de que existem no governo três figuras mais importantes que ministros, ou qualquer outro assessor, ou mesmo aliado politico: os filhos do presidente.
Para piorar, os três têm mandatos eleitorais, Flávio de senador, Eduardo de deputado federal e Carlos de vereador. Podem, portanto, defender suas idéias e projetos das respectivas tribunas, e cada palavra que proferirem será considerada uma mensagem do presidente à sua base política.
A saída de Bebianno gera uma crise política extemporânea, no momento em que o governo quer aprovar a reforma da Previdência. Bolsonaro tem apenas uma suposição de base majoritária na Câmara, que vai precisar ser organizada, e os coordenadores do PSL não têm experiencia.
Bebianno seria um interlocutor do governo com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que deverá comandar as negociações. Não foi por acaso que Maia deu uma declaração forte, afirmando que Bolsonaro não é presidente da associação dos militares.
A relação do presidente da Câmara com o ministro do Gabinete Civil nunca foi boa, apesar de os dois serem os mesmo partido, o DEM. A conexão entre Rodrigo Maia e Bebianno, assim como com o ministro da Economia Paulo Guedes, é que ajudaria a facilitar a tramitação da reforma da Previdência.
A impressão que ficou entre os políticos é que o presidente estava usando o filho para forçar a saída de Bebianno. E o sentimento generalizado é de preocupação, pois Bebianno era considerado um homem de confiança de Bolsonaro, e nessa qualidade ganhou a simpatia dos políticos como canal de comunicação com o Palácio do Planalto.
Se na primeira discussão com um dos seus filhos o presidente joga ao mar um aliado de primeira hora, o que dizer de outro qualquer? Os militares também se preocupam com a ingerência dos filhos, pois acham que nenhum ministro ousará discordar deles, o que causa imensa insegurança institucional.

Miriam Leitão

Reforma ampla e difícil de explicar
Um dado mudou a opinião do presidente Jair Bolsonaro. Ele continuava querendo uma idade bem mais baixa para a aposentadoria da mulher. Mas foi mostrado a ele que hoje a mulher pobre se aposenta em média com 61 anos e seis meses. Isso porque mesmo chegando aos 60 anos ela tem tido dificuldades de comprovar os 15 anos de contribuição. A reforma a ser apresentada na semana que vem vai incluir todos os segmentos e todos os regimes especiais. A mudança para os militares será por projeto de lei, mas divulgado no mesmo dia.
Durante a conversa com o presidente, ficou claro para quem estava na sala que ele tinha estudado o assunto no seu período no hospital. Em alguns momentos, como na explicação da diferença entre a expectativa de vida no Piauí e a expectativa de sobrevida ao chegar à idade de aposentadoria, ele interrompia para dizer que já havia entendido. Mesmo assim, Bolsonaro considerou fundamental ter uma idade diferente para homem e mulher. Na maioria dos países que faz reforma atualmente, busca-se a convergência para a mesma idade.
A reforma como está formatada é forte porque tem um período de transição mais curto. Se na proposta de Michel Temer haveria 20 anos para se chegar à idade mínima, agora serão 10 anos para os homens e 12 para as mulheres. Além disso, já começa com 56 e 60 anos, bem acima do que era anteriormente. Quem a prepara está convencido de que ela é mais simples de explicar. Não parece ser. Vai exigir do governo um grande esforço para tornar claro um projeto que terá três formas diferentes para se aposentar: idade, tempo de contribuição, pontuação. Isso sem falar na capitalização.
Pode-se escolher a aposentadoria por tempo de contribuição, mas respeitando-se a idade mínima. Quem estiver a dois anos de se aposentar pela velha fórmula pagará um pedágio de 50%. Se a pessoa tem 33 anos de contribuição, por exemplo, e se aposentaria daqui a dois anos, ela terá que trabalhar um ano a mais. Então se aposentará daqui a três anos.
O sistema de pontuação já existia. Mulher com 86 pontos e homem com 96 somando-se a idade com o tempo de contribuição. Mas antes isso era critério para saber o valor do benefício, agora passará a ser um critério de elegibilidade, ou seja, de permitir a aposentadoria.
O mais difícil será explicar o sistema de tempo de contribuição porque cada pessoa tem uma situação específica. A aposentadoria por idade, normalmente a dos mais pobres e que recebem um salário mínimo, é mais fácil de explicar e muda pouco.
A reforma abarcará todos os segmentos profissionais para reduzir as desigualdades, porém cada regime especial será tratado diferentemente. Policiais e professores não terão a mesma idade e as mesmas regras dos demais profissionais. Mas todos os setores darão uma contribuição para o esforço de reequilibrar a previdência e reduzir as desigualdades.
A proposta para as Forças Armadas só não estará na PEC porque elas hoje já são reguladas por legislação infraconstitucional. Mas o projeto de lei será divulgado ao mesmo tempo exatamente para passar a ideia de que todos os brasileiros estarão se esforçando juntos para que o país tenha um novo sistema de pensões e aposentadorias.
O fato de haver um político no ninho de economistas, o ex-deputado Rogério Marinho, é visto como um diferencial a favor. Ele tem sido capaz de se entender perfeitamente com os técnicos, mas ao mesmo tempo tem a vantagem de ter experiência política e poder participar da articulação da reforma.
Nada será fácil, contudo. A explicação de uma reforma desse porte é sempre difícil. Há segmentos que não querem entender, porque não querem mudar. A articulação política do novo governo está claudicando mais do que era de se esperar, dado esse início. Há brigas internas. Há também uma incompreensão sobre o processo de negociação política. O errado não é gerir a coalizão, às vezes com aprovação de projetos e obras para os municípios ou setores representados pelo parlamentar. O errado é usar como moeda política a corrupção. A formação do governo atendendo a bancadas, em vez de partidos, não melhora a qualidade da política e piora muito a gestão da coalizão.
Na semana que vem começa a grande batalha da área econômica. Como explicar a reforma em seus detalhes técnicos e como conduzir a tramitação até a aprovação do projeto. Nada será fácil.

As revelações da crise política
O governo Bolsonaro tem 48 dias e já viveu várias crises, a última tem elementos perigosos e reveladores. Primeiro, o caso do ministro Gustavo Bebianno envolve suposto desvio de fundos públicos, nos mesmos moldes da velha política que o presidente Jair Bolsonaro prometeu combater. Segundo, exibiu também de forma extravagante a anomalia que se temia: a intervenção da família nas questões de governo. Por fim, Bolsonaro tentou ajeitar tudo oferecendo a Bebianno uma diretoria da Itaipu, como se cargo fosse moeda de troca.
Bebianno foi copa e cozinha de Bolsonaro desde a pré-campanha. Não há o que o atinja que não respingue no presidente. Fez parte do círculo mais restrito que iniciou a caminhada que levou Bolsonaro ao Planalto. Foi o coordenador da campanha e, portanto, tinha o poder de distribuir dinheiro. O esquema que está sendo revelado é conhecido no Brasil. Verba eleitoral vai para candidatos-laranja, que depois não sabem explicar como foi usado o dinheiro. Neste caso, não falta nada, nem a gráfica suspeita.
A primeira reação do grupo governista foi a odiosa frase do presidente do PSL, Luciano Bivar, para explicar os duzentos e poucos votos na candidata que recebeu a maior parte do fundo partidário. “Política não é muito a vocação da mulher. Essa regra (de 30% de candidaturas femininas) violenta o homem”. Para ele, a vocação da mulher é ser bailarina. O país está tão calejado de frases discriminatórias que isso nem provocou maiores reações. Afinal, na mesma semana, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu os processos contra Bolsonaro, que foi acusado de incitação ao estupro. O STF fez isso porque ele virou presidente, e assim determina a lei, mas o tribunal não consegue explicar por que não o julgou em tempo hábil.
Bolsonaro nunca escondeu de ninguém seu pensamento jurássico sobre várias questões, mas ele havia garantido que combateria a corrupção. Já surgiram vários casos como o do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, que teria usado quatro candidatas-laranja na campanha do PSL em Minas Gerais. O mesmo esquema no qual agora está envolvido Bebianno. Há ainda a fratura exposta das movimentações bancárias de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro e do próprio senador.
O presidente Bolsonaro disse que mandou a Polícia Federal investigar as suspeitas sobre as candidaturas-laranja do PSL que receberam recursos do partido. Imagina-se que a PF investigue, em geral, sem esperar pedidos presidenciais, até para não aceitar vetos presidenciais. Os assuntos que precisam ser investigados que o sejam.
Mas a questão que permanece aberta, independentemente da exoneração de Gustavo Bebianno, é que muito cedo começaram a aparecer sinais da velha política no grupo político mais próximo do presidente. Também muito mais cedo do que se imaginava surgiram turbulências provocadas pelos filhos do presidente. O Brasil não elegeu um clã, até porque a democracia não toleraria isso. Elegeu Jair Bolsonaro. Os três filhos do primeiro dos três casamentos do presidente foram eleitos e exercem seus mandatos. É natural que tudo o que eles façam ganhe muito destaque, mas eles têm exagerado. O vereador Carlos Bolsonaro interferir em assuntos do Planalto é completamente fora de propósito. E o que ele disse foi confirmado pelo pai.
Tudo nesse episódio é esdrúxulo. E disso sabem integrantes do governo. Mesmo que a turma das patentes entre tentando pôr equilíbrio na bagunça, será difícil evitar novos episódios. Carlos, Eduardo e Flávio jamais terão perfil discreto porque nunca tiveram. Aliás, de todos, Flávio é o menos inflamado, mas é o mais encrencado pessoalmente. Jair Bolsonaro criou os filhos assim, eles se espelham no pai. A família jamais se notabilizou pela sensatez e pelo equilíbrio. Só que agora é tempo de governar, e esses poucos dias de exercício do poder têm dado sinais inquietantes.
O desfecho do caso Bebianno já foi dado, sejam quais forem os próximos desdobramentos. A “filhocracia”, na feliz definição do colega Ancelmo Gois na coluna de quinta-feira, está instalada, os métodos da velha política estão presentes no novo governo, e diretoria de empresa pública é moeda de troca e prêmio de consolação. A crise confirmou as piores previsões sobre o governo Bolsonaro.

Crise política desvia o foco da reforma
O ambiente de briga e intriga dentro do governo é o pior para se iniciar uma reforma difícil como a da Previdência. O caso de Gustavo Bebianno mexe com vaidades, tem torcida contra e a favor. O fim de semana inteiro girou em torno do “cai, não cai” do secretário-geral da Presidência.
A crise cresceu enquanto o projeto para a Previdência ganhava forma. Semana passada o presidente decidiu a idade mínima de 65 anos para os homens e de 62 anos para as mulheres. Na próxima quarta-feira, Jair Bolsonaro deve fazer a apresentação oficial da proposta. E as atenções estão voltadas para a briga pública entre Bebianno e a família Bolsonaro.
Um processo prolongado é também a pior forma de fazer uma mudança no governo. Houve uma espécide aviso prévio. O ministro Bebianno está caindo desde a semana passada. Dessa forma, o assunto permanece por mais tempo e afeta, por exemplo, as lealdades de grupos políticos da base. Jornais já trazem declarações de parlamentares em off planejando derrubar pautas do governo. A intenção é dar o recado de que não gostaram de como o caso de Bebianno foi conduzido.
Bebianno comandava o PSL durante a campanha. Semana passada, a “Folha de ”S. Paulo revelou os indícios de candidaturas de laranjas no partido. Para desfazer o rumor de problemas no governo, o secretário-geral da Presidência respondeu que havia falado “três vezes” com o presidente no dia. Carlos Bolsonaro o chamou de mentiroso e o presidente reforçou. Foi aí que a crise começou. Ela não se dá porque o governo tenta explicar o que se parece com um esquema de desvio de recursos de campanha. A discussão é se Bebianno falou mentira ou não. Foi criado um conflito à parte para tirar a atenção do problema real. A pergunta tem que ser se houve ou não dinheiro para laranjas no partido do presidente.
No lugar de Bebianno, que ainda nesta manhã de segunda-feira continua no cargo, o Planalto considera colocar mais um general. Não vai resolver. O governo precisa mesmo é de mais articuladores políticos no Planalto. Isso está faltando. Generais já tem bastante e a maior habilidade deles nunca foi a negociação política.

 

BLOG DO CAMAROTTI
Gerson Camarotti

Depois da crise, estratégia do Planalto é diminuir estrago político do caso Bebianno
O esforço no Palácio do Planalto a partir desta segunda-feira (18) é de mudar a agenda da crise política provocada pelo caso envolvendo o ministro Gustavo Bebianno, da Secretaria-Geral da Presidência, e colocar uma pauta de governo em cena para ocupar o noticiário.
O governo foi atropelado pela agenda negativa do caso Bebianno justamente no momento em que tentava emplacar duas pautas prioritárias: a reforma da Previdência e o pacote de combate à corrupção e à criminalidade, do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro.
Bebianno é centro da primeira crise política do governo do presidente Jair Bolsonaro, gerada pela suspeita de que o PSL, partido de Bolsonaro, fez uso de candidatura “laranja” nas eleições de 2018 para desviar verbas públicas.
Existe uma preocupação imediata em tranquilizar aliados e dirigentes partidários que ficaram perplexos com a fritura explícita de Bebianno por parte da família Bolsonaro. O governo tenta construir uma base aliada sólida para aprovar a reforma da Previdência.
“Se fosse hoje, a reforma não seria aprovada. Todo mundo ficou assustado com o caso Bebianno. Será preciso reiniciar a construção da base aliada. A sorte é que o texto da Previdência só será votado no final de maio”, ressaltou um dirigente partidário ao Blog.
Há o reconhecimento interno, principalmente na ala militar do governo, de que essa crise foi provocada pelo próprio núcleo familiar do presidente Jair Bolsonaro, quando o filho Carlos Bolsonaro desmentiu a informação de que Bebianno tinha conversado com o pai.
A avaliação é que o episódio acabou ofuscando até mesmo a reunião da semana passada em que foi definido o formato da reforma da Previdência. O martelo foi batido pelo próprio Bolsonaro na quinta-feira passada em plena crise.

Em desabafo, Bebianno diz que deve desculpas ao país por ter viabilizado candidatura de Bolsonaro
Diante da crise política em que virou protagonista, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, fez um desabafo para interlocutores próximos e demonstrou profundo arrependimento em ter trabalhado ativamente pela eleição do presidente Jair Bolsonaro.
“Preciso pedir desculpas ao Brasil por ter viabilizado a candidatura de Bolsonaro. Nunca imaginei que ele seria um presidente tão fraco”, disse Bebianno para um aliado, numa referência à influência dos filhos do presidente no rumos do governo, especialmente o vereador Carlos Bolsonaro.
Nessas mesmas conversas, Bebianno demonstra preocupação com o efeito desse protagonismo familiar nas decisões do país. E reconhece que o governo Bolsonaro precisa descer do palanque para administrar o Executivo.
Para aliados de Bebianno, também causou contrariedade o movimento da família Bolsonaro para sacramentar a saída do ministro do governo. No momento em que vários aliados trabalhavam na sexta-feira (15) para baixar a temperatura, contornar a crise e manter Bebianno, integrantes da família do presidente vazaram para a imprensa que o pai havia demitido o ministro, para tornar a queda um fato consumado, sem chance de mudança no fim de semana.

 

 

VALOR ECONÔMICO

Luiz Carlos Bresser

 

Delfim Netto

 

 

CORREIO BRAZILIENSE

Nas entrelinhas
Luiz Carlos Azedo

O PSL vai minguar e Bolsonaro sabe disso
Há um cálculo que ainda não foi feito pelo Palácio do Planalto na guerra com o breve ministro Gustavo Bebianno. E não foi por distração ou mesmo incompetência, mas pela própria dificuldade da equação. Explica-se. Tirando o desgaste precoce e desnecessário da influência do vereador Carlos Bolsonaro nos assuntos do governo federal, o afastamento da cúpula do PSL não é lá uma das piores notícias do mundo, pelo menos de imediato.
Vale sempre lembrar que a força eleitoral de Bolsonaro poderia ser testada antes mesmo da campanha — só não viu quem não quis. Assim, a filiação do capitão reformado se deu por uma relação estratégica com o PSL e, é claro, Bebianno foi fundamental nesta história, mas o então deputado poderia ter arrumado outro barco para entrar, dada a força eleitoral do “mito”. O PSL, assim, é uma legenda que reúne gente eleita às custas de Bolsonaro, por mais crua que seja tal análise.

Embate
Depois do resultado catastrófico do embate com Bebianno — por mais que os militares tivessem tentado evitar —, resta ao Planalto se afastar do núcleo do PSL, ou pelo menos restaria. Na conta dos dirigentes tóxicos — a partir da lógica dos bolsonaristas — estariam Bebianno e o deputado pernambucano Luciano Bivar, atual presidente do PSL. Se a crise teve algum componente positivo para o Planalto, pode-se dizer que foi a chance de o clã Bolsonaro tentar se afastar do PSL e das suspeitas de candidaturas laranjas. A questão é: a partir de agora, quais as cenas dos próximos capítulos, considerando a força eleitoral da legenda e a tramitação da reforma da Previdência? Bem, é onde mora o perigo.
A tendência, a partir de agora, como sabem e planejam os Bolsonaros, é o enfraquecimento do PSL. Na prática, a relação de Bolsonaro com o partido estava com Bebianno, uma espécie de faz-tudo na campanha, conforme atestam interlocutores que visitaram a casa do capitão reformado no Rio durante a eleição. A maior prova da importância do ex-presidente do PSL foi ele ter recebido o cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência. Por mais que a legenda tivesse funcionado como partido-hospedaria para o capitão reformado e a turma de deputados estaduais e federais, o corte do integrante do primeiro escalão do governo repercute entre os atuais integrante da legenda.

Desfiliação
Antes mesmo da crise entre Carlos Bolsonaro e Bebianno, a avaliação era a de que o PSL poderia ser vítima de ataques de partidos maiores e mais estruturados, como o DEM. O partido do presidente elegeu 52 deputados nas eleições do ano passado. Perdeu apenas para o PT, que saiu das urnas desestruturado sem qualquer chance de buscar uma oposição consistente, principalmente pelos dogmas impostos pela própria direção da legenda. No início, logo depois da vitória acachapante, chegou-se mesmo a supor que o PSL poderia cooptar mais parlamentares ao longo da legislatura. A tendência, entretanto, é de que ocorra o contrário: a legenda perder integrantes, tal como ocorreu com o PRN, o tal Partido da Reconstrução Nacional, que virou fumaça logo depois da eleição de Fernando Collor de Mello.
Bolsonaro, na prática, é maior do que o PSL. Até aí nada de novo, pois o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva era maior do que o PT. Mas, ao contrário do PSL, o Partido dos Trabalhadores tinha unidade, ramificações de uma legenda de verdade. Não é o caso do partido do presidente, que antes mesmo de se encontrar, pode se perder e findar. O desarranjo a partir de agora está nos próximos passos do governo em relação à unidade dos partidos governistas. Por mais que Bebianno possa fazer ameaças naturais de soldado ferido pelo próprio grupo, a maior dificuldade não estará aí. A questão é que, mesmo sem unidade — um balaio de gatos inexperientes —, o PSL representava algum porto seguro para Bolsonaro na tramitação de projetos como o da Previdência.
A partir de agora esse cenário é incerto; daí, a preocupação dos militares, que tentaram estancar a crise política. Bebianno representava de certa forma um negociador com os políticos eleitos do partido. Sem ele no governo, o que significa o enfraquecimento do PSL, os homens do Planalto terão de se desdobrar para buscar a unidade na aprovação da matéria no Congresso. Assim, Bolsonaro até se livra de um problema com a saída de Bebianno, pois pode alegar distância das negociações dos laranjais, mas isso não significa que tudo será mais fácil a partir de agora.
Se o presidente se livra de um problema com a saída de Bebianno do Planalto, agora pode vir a ter outros de ordem maior. O principal é a ira de um soldado ferido pelo próprio grupo que acredita defender. O outro, talvez ainda mais perigoso, é a aprovação da reforma da Previdência

 

DIÁRIO DO PODER
Cláudio Humberto

MORO É POP TAMBÉM EM SEU PRÓPRIO MINISTÉRIO
O mais popular ministro do governo Bolsonaro, Sérgio Moro venceria fácil qualquer concurso de Mister Simpatia no próprio Ministério da Justiça, que chefia há menos de cinquenta dias. Habituados a ministros que mal os cumprimentava, os servidores agora têm um chefe que não se isola. Ao contrário, circula no prédio, procura visitar cada setor, apresenta-se, ouve e avisa que seu gabinete está aberto a todos.

SEM AFETAÇÃO
Moro convive bem com a popularidade entre os colegas de trabalho. Amável e paciente, sempre topa fazer selfies, dar autógrafos etc.

BANDEJÃO DA HORA
Ele poderia almoçar no gabinete, como os antecessores, mas prefere o bandejão, que assim virou o restaurante mais concorrido da Esplanada.

O SEM-JATINHO
Como só usa voo de carreira, Moro criou um problema: assessores têm larga experiência em requisitar jatinho da FAB e não passagens.

SEM PRIVILÉGIOS
A assessoria tenta uma rotina que permita a Moro embarcar antes ou depois dos demais passageiros, para não os incomodar.

PRESIDENTES EDITAM 4,2 MPS POR MÊS DESDE 2001
Desde que Medidas Provisórias (MP) foram remodeladas e passaram a ter força de lei e aplicação imediata, em 2001, os ex-presidentes Fernando Henrique, Lula, Dilma Rousseff, Michel Temer e o presidente Jair Bolsonaro criaram 872 que, eram (supostamente) relevantes e urgentes o suficiente para serem justificadas. Na prática, é como se todo mês, o presidente da República criasse mais de quatro leis, que vigoram por 120 dias sem necessidade de aprovação do Congresso.

CAMPEÃO
FHC foi quem mais “legislou” a partir do Planalto: 102 MPs, média de 6,8 por mês. Em números absolutos (419 MPs) Lula é o recordista.

MENOS E MAIS
O presidente Michel Temer (MDB) criou 144 medidas provisórias em dois anos e 8 meses. Em média são 4,5 por mês; mais que Lula (4,4).

DISTANTES SEMELHANTES
Entre a posse em 2011 e o impeachment, Dilma editou 204 MPs; cerca de 3,2 por mês. No primeiro mês de governo, Bolsonaro editou três.

NOVA DINÂMICA
Na quinta-feira (14), o PT tentou salvar projeto do governo Lula, datado de 2010, de “cooperação educacional” entre o Brasil e a pequena ilha caribenha de São Cristóvão e Névis. Érika Kokay (PT-DF) fez pedido para retirar da pauta. O requerimento da petista perdeu por 5 a 268.

BOA NOTÍCIA DO MP
Em meio à apreensão após a transferência dos bandidões dos presídios para penitenciárias federais, o Ministério Público paulista tomou a decisão de criar a promotoria de Segurança Pública.

REFORMAR É PRECISO
Estudo CVA Solutions revela que 63% dos brasileiros apoiam a reforma da Previdência. A avaliação, acima dos 54% que consideram o governo bom ou ótimo, mostra que a necessidade da reforma foi compreendida.

335 VOTOS
Para ser aprovada a Proposta de Emenda à Constituição que reforma o a Previdência no Brasil, o governo Bolsonaro precisa de 308 votos dos 513 deputados na Câmara; três quintos. Já se contabiliza 335.

OLHO NELES
Com cheiro de briga por holofotes, comissão da Câmara que investiga a tragédia de Brumadinho ouve nesta terça (19) os representantes do Ministério de Minas e Energia, Tribunal de Contas da União e Ibama.

O QUE É BOM SE COPIA
O decreto de indulto assinado pelo presidente Bolsonaro, de caráter humanitário, beneficiando presos com doenças graves, é bem parecido com a proposta do Conselho Nacional Penitenciário, relatada pelo juiz Márcio Schiefler, ex-braço direito do saudoso ministro Teori Zavascki.

NÃO POUPAR É PREJUÍZO
O Previdenciômetro da Confederação Nacional da Indústria contabiliza mais de R$ 6,7 bilhões que teriam sido poupados se a reforma da previdência houvesse sido aprovada em 2017. São bilhões de prejuízo.

CPI PROVEITOSA
A CPI de Brumadinho, como todas as comissões de inquérito no Congresso, tem os mesmos poderes de investigação de autoridades judiciais. A CPI pode convocar ministros, ouvir suspeitos e testemunhas, e até quebrar o sigilo fiscal e de dados da Vale.

PENSANDO BEM…
…fevereiro já está acabando, mas o Congresso só tem a primeira semana completa de trabalho a partir de hoje.

 

VEJA

Radar
Maurício Lima

Com cofres vazios, Caiado passa a faca em Goiás
2,5 mil contratos estão sendo auditados
A situação financeira em Goiás é calamitosa.
O governador Ronaldo Caiado recebeu o estado com apenas 11 milhões de reais em caixa e um déficit de 3,4 bilhões. Para se ter uma ideia, só o funcionalismo público custa, em média, 1,6 bilhão de reais por mês aos cofres públicos.
Por isso, os cortes. Caiado mandou auditar 2,5 mil contratos do governo anterior. No último dia útil da gestão José Eliton (PSDB), foi aberta uma licitação de 300 mil reais para comida do palácio. Foi cortada também.

Líder do PSL anda com coldre dentro do plenário e assusta a oposição
Delegado Waldir readquire o hábito e garante não ser para assustar adversários políticos
Líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir (GO) voltou a andar com o coldre, sem sua a sua pistola, dentro do Congresso. Inclusive no interior do plenário.
Na quarta passada, dia de sessão com Casa cheia, um parlamentar da oposição viu e ficou assustado. O parlamentar explicou que usa por segurança.
Diz ter funcionários que trabalham ali, cita servidores da limpeza, que prendeu quando era delegado em cidades de Goiás no entorno de Brasília.
“Na garagem, tiro a arma e as balas e as deixo no gabinete. Eu esqueci o rosto dessas pessoas, mas eles não esqueceram o meu”. A arma tem dois carregadores, que podem disparar 39 tiros.

Gabriela Hardt rejeita apelo de Eduardo Cunha
Defesa do ex-deputado chegou a pedir busca e apreensão na casa de delator
A juíza Gabriela Hardt negou pedido feito pela defesa do ex-deputado federal Eduardo Cunha para que fosse entregue uma cópia do processo envolvendo o delator Júlio Camargo e a Samsung.
Esse processo tramitou na corte de Londres. Ele diz respeito a uma arbitragem contra a Samsung por falta de pagamento de duas parcelas do contrato entre Camargo e a empresa.
Os advogados de Cunha afirmaram que o documento é importante para a produção da defesa do ex-parlamentar.
Isso porque a Samsung foi responsável pelo fornecimento de navios-sonda que teriam sido parte do esquema de corrupção apontado pela Lava-Jato.
Os advogados chegaram pedir, inclusive, que fosse feita busca e apreensão na casa de Camargo para recolhimento do material.

Avança processo de privatização de estatais do DF
À la Paulo Guedes
Está avançado o processo de privatização de algumas estatais do Distrito Federal. Entre elas, o banco BRB, a Caesb, de água e a CEB, de energia.

A GM vai ficar em São Paulo
O dia do fico
Henrique Meirelles só está esperando a vinda ao Brasil da CEO da GM Mary Barra para anunciar que a montadora vai permanecer em São Paulo e fazer novos investimentos.
Para conseguir tal feito, o secretário costurou um acordo que prevê a redução do piso de novos contratados e das margens de fornecedores, além da concessão de incentivos fiscais a partir de 2023.

Bebianno diz ter “papéis e documentos”, mas se cala sobre gravações
Governo receia revelações comprometedoras de seu quase ex-ministro
A essa altura, emissários de Jair Bolsonaro procuram Gustavo Bebianno para evitar o mal maior: futuras revelações do quase ex-ministro sobre a campanha eleitoral, a transição e as primeiras semanas do governo. Disse a um deles que têm “papéis e documentos”, que, ao entender, comprometem. Foi perguntado sobre possíveis gravações, como conversa de celulares. Nada respondeu.

Doria recebe aprovação de cacique ao nome de Bruno Araújo à frente do PSDB
Caminho aberto
Fernando Henrique, Geraldo Alckmin e Antonio Anastasia. A lista de jantares de João Doria para remover resistências ao nome de Bruno Araújo à presidência do PSDB é extensa. O mais recente foi com Tasso Jereissati. Valeu. Doria teve o nihil obstat do cearense.

Quanto tempo Carlos Bolsonaro ficará longe de Brasília?
Essa é a pergunta que o núcleo duro do governo se faz hoje
Depois da balbúrdia provocada em Brasília, Carlos Bolsonaro retornou para o Rio e fez uma breve aparição na Câmara dos Vereadores. O entorno do presidente está respirando aliviado com a ausência de “Carluxo” no Planalto. A questão é quanto tempo o alívio vai durar. Na outra vez que entrou em rota de colisão com Gustavo Bebianno, o filho do presidente também se recolheu durante um tempo, disse que não ia interferir em mais nada, mas, como todos sabem, não só retornou como provocou um rebu desnecessário. A pergunta agora é quanto tempo ele ficará longe de confusões dessa vez. E também qual será o seu próximo alvo.

Secretário de desestatização recebe subsídio do governo
O meu, não
Secretário de Paulo Guedes, Salim Mattar apoia a guerra contra subsídios promovida pelo chefe — desde que a questão não chegue em Minas Gerais.
Por lá, a Localiza, sua empresa, paga apenas 1% para emplacar seus carros. O resto dos mortais desembolsa 5%.

Chanceler cancela reunião com CEO por presença de autoridades venezuelanas
Nada diplomático
Ernesto Araújo cancelou uma reunião com Gorän Marby, CEO da Icann (entidade que controla a internet no mundo), para discussão do domínio “amazon”, hoje utilizado pela gigante americana de varejo. Motivo: Araújo disse que não se senta à mesa com a Venezuela. Além da turma de Maduro, outros seis países estavam confirmados.

As contas no Planalto para aprovar reforma da previdência
A matemática do sucesso
Uma das raposas mais felpudas do Congresso diz que hoje o governo tem cerca de 200 votos a favor da reforma e pelo menos 130 contra. Precisa conquistar pelo menos mais uns 120, 130 deputados para que a votação possa ser levada a plenário sem riscos.

Onyx passa a aceitar indicações políticas para aprovar previdência
Os fins e os meios
Onyx Lorenzoni resolveu jogar de verdade para ajudar na aprovação da reforma da previdência. O ministro passou a aceitar indicações de políticos para alguns braços da administração federal. Ancine, Iphan e Geap são alguns exemplos de negociações.

O trunfo de Gilmar Mendes contra a investigação da Receita
No contrataque
Gilmar Mendes tem um trunfo importante para mostrar que o auditor da Receita que produziu um relatório contra ele e sua mulher Guiomar fez de má-fé.
Em novembro, o mesmo técnico pediu documentos ao IDP, seu instituto, sob o falso pretexto de uma diligência orientada pelo Carf.

Presidente do Patriota alertou Bolsonaro sobre Bebianno
“Falei ao Bolsonaro da ganância do Bebianno. Mas não me escutou”, diz Adilson Barroso
Jair Bolsonaro chegou a assinar a ficha simbólica de filiação ao Patriota. Com foto oficial e tudo. Gustavo Bebianno, porém, queria o controle completo da sigla e a coisa desandou. O capitão foi parar no PSL, com o seu quase ex-ministro mandando e desmandando. Adilson Barroso, presidente do Patriota, lembrou hoje essa história. “Se o Bolsonaro tivesse vindo para o Patriota nada disso estaria acontecendo. Falei para ele da ganância do Bebianno. Eu morro, mas não traio o presidente. Mas ele não me ouviu. Vem mais coisa por aí”. O partido de Adilson acabou lançando o folclórico Cabo Daciolo ao Planalto.

Bolsonaro temeu pela própria vida durante internação
Teve susto, sim
A cirurgia foi bem-sucedida, mas os boatos de que o presidente teve complicações não eram tão infundados assim. Recuperado, Bolsonaro escreveu mensagens a alguns auxiliares dizendo que quase “passou para o outro lado” durante sua estada no hospital.

PF reforça segurança de Moro após transferência de Marcola
Medo de vingança
Com a transferência de Marcola para um presídio federal, a PF reforçou a segurança pessoal do ministro Sergio Moro e de toda a sua família.

Carlos Bolsonaro exonera nove funcionários de seu gabinete
Limpando a casa
Enquanto cuidava do papai no hospital e sacudia Brasília, “Carluxo” teve tempo de exonerar nove funcionários do seu gabinete na Câmara dos Vereadores do Rio.
Como se sabe, seu irmão Flávio também demitiu Fabrício Queiroz antes da investigação do Coaf.

Partidos tentam convencer Bretas a se lançar prefeito do Rio
Tira a toga e bota a faixa
O governador eleito do Wilson Witzel e o juiz federal Marcelo Bretas durante cerimônia na comunidade judaica no clube Hebraica Rio (Bruna Motta/VEJA)
Depois da vitória de Wilson Witzel e da ida de Moro para o ministério, a política pode seduzir mais um magistrado. Existe uma articulação entre o PSC e o PSL para convencer o juiz Marcelo Bretas a se lançar prefeito da cidade.

Blog do Noblat
Ricardo Noblat

Aumentem a crise, senhores!
Suicídio à vista
Por Ricardo Noblat access_time 18 fev 2019, 07h00 more_horiz
Ele sabe muito. E se contar um terço do que insinuou nas últimas 48 horas que possa contar, de fato o advogado Gustavo Bebianno, a essa altura possivelmente já demitido do cargo de ministro da Secretaria-Geral da presidência da República, causará severo estrago à imagem do presidente Jair Bolsonaro e do seu governo mal iniciado.
Mas nada capaz de antecipar o seu desfecho, e nem mesmo de comprometer o seu êxito no longo prazo. O que de fato poderá contribuir para o fim precoce da Era Bolsonaro é a ideia de jerico em exame pelo capitão e seus aguerridos garotos de largarem o PSL e irem se abrigar em outro partido de aluguel, a UDN.
A União Democrática Nacional (UDN) foi um partido fundado em abril de 1945 para fazer oposição às políticas e à figura de Getúlio Vargas. Era de orientação conservadora. Adotou como lema uma frase apócrifa de Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”.
O golpe militar de 1964 extinguiu todos os partidos – inclusive a UDN que o apoiou. Mas há uma UDN fake em formação, com CNPJ e pedido de registro no Tribunal Superior Eleitoral. Ela já tem diretórios em nove Estados e espera obter seu registro definitivo em breve. É um dos 75 partidos em fase de criação.
Um dos seus principais dirigentes é o advogado Marco Vicenzo, que lidera o Movimento Direita Unida. Vicenzo mudou-se de Vitória para Brasília e está à caça de parlamentares dispostos a trocar de partido. A lei permite que um parlamentar eleito por um partido possa se transferir para outro – desde que seja uma legenda nova.
Para quem, como Bolsonaro, que não confere a mínima importância a partidos, e que já foi filiado a sete deles (PDC, PPR, PPB, PTB, PFL, PP e PSC) em 30 anos de vida pública, sair do PSL onde está e aderir à UDN fake seria tão simples como mudar de sapato – isso quando não se exibe de sandálias para fotos oficiais no Alvorada.
É aí que o bicho pode pegar. Quem está no PSL se elegeu pegando carona na boleia de Bolsonaro e com a promessa de apoiá-lo sem condições. Natural que essa gente se sinta abandonada. A relação de confiança entre o líder e os liderados será rompida. A maioria talvez não o acompanhe e se sinta liberada para votar como quiser.
E o dia seguinte? E como ficará a reforma da Previdência, a joia da coroa que Bolsonaro por enquanto lustra para apresentá-la ao Congresso? Ali, na Câmara dos Deputados, ele precisará de três quintos de um total de 513 votos para aprovar a reforma e tudo mais que implique em mudança na Constituição.
Confiança é a base dos compromissos na política. A demissão de Bebianno era a prova que faltava para demonstrar que Bolsonaro só tem compromisso com seus garotos. No passado, ele foi capaz de eleger e reeleger vereadora no Rio sua primeira mulher. Para depois lançar Carlos como candidato só para derrotar a própria mãe.
Que ele experimente fugir do PSL para fazer de conta que nada teve a ver com os rolos do partido! Aí a crise não terá mais fim.

Governo de amadores
Seja o que Deus quiser…
Jair Bolsonaro, quando se deixa levar pelos filhos e os usa quando quer. Ou seja: com muita frequência, especial o Carlos, conhecido como 02, obcecado pelo pai, e repleto de ideias malucas.
Os filhos, jovens belicosos, encantados com a chegada ao poder, parlamentares eleitos graças ao prestígio político do chefe do clã que os ensinou a pegar em armas desde os cinco anos de idade.
Militares, que ajudaram Bolsonaro a se eleger e que se empenham em funcionar como curadores do governo. Gestão pode ser o forte deles, mas política, não. Hierarquia, ordem, disciplina são valores intrínsecos à vida na caserna, mas estranhos à vida na política.
Ministros nomeados por viés ideológico. É o caso de Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Ricardo Vélez Rodríguez (Educação) e Damares “Goiabeira” Alves. Jamais ocuparam cargos administrativos. Foram recrutados por pensarem como o capitão.
Os Postos Ipiranga, Paulo Guedes na Economia, Sérgio Moro na Justiça e Segurança. Os dois são também novatos em funções públicas. Bolsonaro depende umbilicalmente do sucesso deles em suas respectivas áreas para proclamar o êxito do seu governo.

 

BLOG DO JOSIAS
Josias de Souza

Bolsonaro desdenha de retaliação de Bebianno
Indagado por auxiliares sobre o teor de mensagens de texto e de áudio que trocou com Gustavo Bebianno desde a campanha eleitoral por e-mail ou WhatsApp, Jair Bolsonaro disse estar “tranquilo”. Desdenhou da hipótese de sofrer retaliação do ex-amigo que enxotou da Secretaria-Geral da Presidência. Assegura que não forneceu ao agora ex-ministro nada que se pareça com munição.
A autoconfiança de Bolsonaro não conseguiu tranquilizar todos os auxiliares qua acompanham a gestão da crise. Em conversa com um amigo, neste domingo, um ministro fardado do governo disse: “Se o presidente estivesse realmente tranquilo, não teria tentado amarrar Bebianno numa diretoria de Itaipu”. Remanesce o receio de que a Presidência de Bolsonaro seja alcançada por alguma bala perdida.



Jose Mauricio dos Santos
Autor: Jose Mauricio dos Santos
Jornalista, Cientista Político e especialista em Marketing Político.

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